De carro em Portugal

Relendo os posts publicados até aqui, e lembrando dos relatos das outras viagens anteriores, senti falta de explicações mais específicas sobre como utilizar a malha rodoviária portuguesa.  Cheguei a fazer algumas menções (altamente positivas, e com razão) sobre a qualidade das estradas quando relatei o bate-volta a Santiago de Compostela.

Em um bate-papo descontraído sobre a viagem, dia desses, o Eduardo me disse ter visto em algum lugar (talvez uma notícia, talvez um documentário, eu não lembro agora) que Portugal tinha mais estradas do que carros para circular nelas.  Deve ser isso mesmo.  Excetuando o centrão de Lisboa, que é bem apertado e o miolo da cidade do Porto, Portugal me lembrou os anos 80 no Rio de Janeiro, onde era fácil circular de carro, não havia engarrafamentos e encontrar uma vaga para estacionar na rua estava longe de ser uma proeza – talvez necessitasse de um pouco de paciência ou chegar cedo no lugar.  Talvez por isso, fora desses dois grandes centros que mencionei, os estacionamentos privados sejam tão baratos (não ponha o câmbio nessa conta porque isso é miséria nossa, não deles).

Quando Portugal entrou na Comunidade Europeia, era o país mais pobre do bloco.  Por isso, durante muitos anos recebeu generosas doações do Fundo de Redução das Desigualdades da Comunidade Europeia.  Bem, o tal Fundo não era exatamente caridade.  Com a queda das fronteiras e a livre circulação de bens e pessoas, seria natural prever que a população mais pobre causaria um sério problema migratório em direção aos países mais ricos, catando oportunidades de emprego e salários mais elevados, além de melhores condições de vida e acesso a serviços públicos de melhor qualidade.  O Fundo tinha por objetivo gerar empregos e renda nesses países, reduzindo sim a desigualdade mas com intuito de prender a população local no seu país de origem.

Mapa esquemático das principais estradas portuguesas
Mapa esquemático das principais estradas portuguesas

Assim, no final dos anos 1990 e início dos anos 2000, Portugal foi um mar de oportunidades de emprego.  Só ficava parado quem queria.  A construção civil parecia ser o setor mais próspero porque (um detalhe) as verbas do Fundo tinham que ser investidas em infraestrutura – tal como os royalties de petróleo no Brasil.  A face mais visível do resultado desses investimentos são a recuperação dos centros históricos das cidades portuguesas – todos os que conheço absolutamente impecáveis – e a malha rodoviária portuguesa.

São estradas impecáveis e superdimensionadas.  Não há buracos, a sinalização é perfeita, as curvas são doces e os desníveis foram suavizados tanto quanto seria possível.  Quem as construiu não fez economias.  Viadutos abundam sobre vales para diminuir distâncias; há mais pistas de rolamento que o necessário.  Se antigamente se gastavam cinco horas para ir de Lisboa ao Porto, hoje são necessárias pouco menos de três horas (sem exceder o limite de velocidade).

Só que o leste europeu também entrou na Comunidade Europeia, trazendo consigo índices sociais mais baixos que os portugueses.  Resultado: Portugal ficou na média, não contribui mais para o Fundo, mas também não recebe mais dinheiro.  Os investimentos minguaram e o resultado é uma crise persistente que mantém baixos os níveis de emprego e de renda da sua população.  Só que as estradas estão lá, ficaram como legado dos bons ventos que empurraram o país na época das vacas gordas.

Cheguei a circular muitos quilômetros em algumas estradas portuguesas sem me deparar com um carro sequer à frente ou atrás.  A A-13, por exemplo, que liga Coimbra a Tomar, é um exemplo disso.  Uma baita estrada, melhor que a via Dutra em todos os aspectos técnicos construtivos, absolutamente deserta.

Estradas boas requerem dinheiro alto para sua manutenção.  Por isso, e sabendo que o dinheiro do Fundo não poderia ser utilizado para manutenção das estradas, o governo português adotou a estratégia de privatizá-las.  Assim, hoje, circular pelas principais estradas portuguesas requer o pagamento de pedágio.  Não são exatamente baratos, para os nossos padrões tupiniquins, por causa do câmbio, mas a relação custo-benefício é francamente favorável, na minha opinião – principalmente se tivermos como parâmetro de comparação a relação custo-benefício da principal estrada do país, a Via Dutra, que é apertada, tem aquela serra de descida anacrônica e está dimensionada para um volume de veículos muito inferior ao que nela circula há alguns anos.

Essa é a minha opinião, não é a de todo mundo.  Veja esse vídeo (hoje é quinta-feira, dia de vídeo, lembram?), por exemplo, no qual o autor, residente em Portugal, discorda, achando caros os pedágios portugueses.

Vale uma observação ao que você ouviu no vídeo: a tarifa mínima que a TAP tem cobrado é, sim, de aproximadamente 25 euros por passageiro no trecho entre Lisboa e Porto (incluindo taxas), mas esse preço só é obtido em compras feitas com muita antecedência, para horários de pouco movimento (não espere encontrar essas tarifas no início da manhã e no fim do dia), não é reembolsável, não é remarcável e só permite ao passageiro o transporte de uma mala de mão (não pode despachar bagagem).  Fora dessas condições, espere preços bem mais altos (por volta de 100 euros por passageiro, ou mais).

A cobrança de pedágios é feita de duas formas em Portugal – diferentes do que estamos acostumados aqui no Brasil.

A primeira delas é através de portagens como as nossas, só que elas não estão ao longo das estradas, cobrando apenas de quem passa naquele trecho.  Elas estão nos acessos, nas entradas e saídas.  Quando o carro entra na estrada, pega um tíquete; quando sai, apresenta o tíquete e paga o pedágio proporcional ao uso da estrada, ou seja, à quantidade de quilômetros rodados.  Isso apresenta duas grandes vantagens em relação ao nosso sistema: justiça no pagamento (todo mundo paga, não apenas quem tem que circular no trecho que tem o pedágio, e paga exatamente pelo que consumiu) e a inexistência de quebra no ritmo da viagem (não é necessário diminuir a velocidade para pagar pedágio a não ser na saída da estrada).  E, um fato curioso e evolutivo em relação ao nosso sistema de “tag“, a pista do “onda livre” é sempre do lado esquerdo da portagem, de modo que os veículos mais rápidos permanecem na pista da esquerda mesmo na hora de pagar o pedágio.  Quem tem tag não precisa pegar tíquete nem apresentá-lo na saída, é só passar que o sistema registra, faz as contas e a cobrança automaticamente.

Pórticos de cobrança de pedágio
Pórticos de cobrança de pedágio

A segunda delas é através de pórticos instalados ao longo da rodovia, geralmente próximos às saídas.  Esses pórticos são dotados de câmeras e sensores que registram a passagem do veículo e eventual tag que ele possua.  Com o tag, a cobrança segue o caminho normal pela administradora do tag.  Quem não possui tag, tem cinco dias úteis para se dirigir a uma agência dos correios (chamados “balcão CTT”) e efetuar o pagamento, sob pena de multa, bastando indicar o número da placa do carro.

Em caso de dívidas antigas, com multas já aplicadas (a multa não livra o pagamento do pedágio), o pagamento pode ser feito neste site (que não vale para todas as rodovias do país).  Esse sistema mantém a ideia da justiça na medida em que cobra valores fixos menores a cada saída da rodovia, de modo que cada usuário pague apenas pelos trechos que utilizou.  Mas ele torna o uso do tag praticamente obrigatório para quem as precisa utilizar.  Portanto, aí vai uma dica preciosa para quem pretende circular de carro pelas estradas portuguesas: alugue o carro com tag habilitado!

Há também inúmeras estradas menores, bem mais simples mas igualmente impecáveis, que circulam entre as pequenas cidades, vilas e aldeias portuguesas.  Não têm um traçado tão bom, às vezes são até perigosas demais, mas são certamente mais que suficientes para o tráfego que elas recebem.  Viajar por elas é uma experiência única – altamente recomendável.

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2 Comments

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  1. Perfeito!👍

    Eu sei.

  2. Mas deve ser tão giro, pá…

    Acredite: é.

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