Cavucando o passado

Este post é a primeira parte de uma história dividida em nove capítulos.  A divisão se presta a permitir contar as diferentes fases da história em diferentes posts, separando-as didaticamente.  Serve também para tornar a leitura mais atraente, especialmente para os leitores assíduos do blog.  Como a narrativa será longa, escrevê-la toda de uma só tacada tornaria enfadonha e desinteressante, ainda mais nos dias de hoje nos quais o público internauta deseja coisas rápidas e facilmente deglutíveis – um mundo em que até mesmo este blog já pode ser considerado anacrônico.

Não é uma novela, mas é quase isso.  Todos os fatos narrados aqui são reais e, para desonra da tradicional linha narrativa de causos deste blog, não há aumento de ponto na contação do conto.  Por outro lado, mantendo o princípio editorial de preservação da identidade de terceiros, algumas datas, alguns nomes de lugares e todos os nomes de pessoas foram substituídos.

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Todos os leitores assíduos do blog estão perfeitamente familiarizados com as “Histórias da Vovó“.  São causos fantásticos, absurdos (no bom sentido da palavra), histórias incríveis de um passado muito distante e tão remoto que uma criança normal dos dias de hoje (isto é, altamente informatizada) mal pode imaginar.  Era o tempo das lendas urbanas, das crenças em simpatias e no sobrenatural cotidiano, o tempo do “eu conheci uma pessoa que tinha um primo que viu“, do ínfimo conhecimento científico pelas camadas mais populares da sociedade urbana carioca.  Histórias de uma realidade que já não existe mais.  Todos contados pela avó da Fiona.

A maioria dessas histórias, até hoje talvez a mais vezes repetida, eram (e ainda são) as que envolvem um personagem em especial: o pai dela – ou seja, o bisavô da Fiona.  Do meio daquele mundo de informações desencontradas, em que datas e fatos não batiam, sem falar nas inúmeras contradições apuradas entre as narrativas feitas em diferentes momentos pela própria avó da Fiona e também pelos seus irmãos, algumas coisas nós podíamos extrair de comum: ele havia nascido em Portugal, emigrado para o Brasil durante a década de 1910 (talvez no início da década de 1920, não há certeza quanto a isso) ainda muito  jovem e feito a vida aqui como açougueiro, alternando residência e trabalho no Catumbi, em Vila Isabel, na Tijuca e no Andaraí.  Um dado específico era coincidente em todas as narrativas: o nome da aldeia onde ele nascera – Palheiros.

Com essas informações e de posse do único documento de identidade que sobreviveu à longa viagem de Portugal ao Brasil e ao tempo (uma carteira de alistamento no serviço militar), teve início, há alguns anos, a busca pelo passado da família da Fiona.  Meus pais foram designados como os primeiros soldados dessa epopeia e, em uma viagem de férias a Portugal, se dispuseram a gastar um dia inteiro na pesquisa documental dessas reminiscências.  Dirigiram-se a Coimbra, cidade pólo da região onde está localizada a tal aldeia, e, na Conservatória do Registo Civil (é Registo mesmo, a grafia portuguesa é assim), deram início às buscas.

No trecho a seguir, devido ao fato de eu não estar presente, não posso garantir 100% da veracidade dos fatos; no entanto, se houver alguma imprecisão, minha mãe, que estava presente, certamente apontará nos comentários

Chegaram, identificaram-se e explicaram o que queriam.  Pela data de emissão do documento de alistamento (1916), era possível depreender a idade do seu portador com uma simples conta de subtração – não constava no documento a sua data de nascimento, por incrível que pareça.  Isso significava que ele havia nascido em 1898.  Primeira tarefa inglória da busca: vasculhar todos os registros de nascimento da região de Coimbra feitos no ano de 1898.

O livro foi localizado, colocado sobre o balcão e a atendente folheou todas as páginas que guardavam os assentos de nascimento de 1898.  Nenhum registro de nascimento daquele ano possuía o nome do bisavô da Fiona.  Viram, reviram, e meus pais já podiam sentir na conversa um misto de impaciência e satisfação pela busca frustrada.

Meu pai é o sujeito mais chato (no sentido da persistência) que eu conheço.  Esse dom eu não herdei dele.  Ele vai até o fim, não desiste nunca.  Eu teria desistido da busca ali, mas ele jamais se daria por vencido.  Ainda mais com tempo de sobra; ainda mais que era algo importante para a Fiona; ainda mais porque isso renderia uma bela história para ele contar.  Ele também é o sujeito mais sortudo que eu conheço.  Sorteio de consórcio, rifa da igreja, ele é sempre o primeiro a ser sorteado.  Desafia a lógica e a ciência estatística.  Agora junte uma coisa à outra e continue lendo a história.

Ele pediu para ver o livro, ele próprio.  Numa revisão mais atenta, com os olhos do interessado, talvez fosse possível localizar algo que tivesse passado despercebido, acidental ou propositalmente.  A moça, dando com os ombros por ter certeza do insucesso da busca, franqueou-lhe o livro.  Metodicamente, ele o abriu na primeira página para conferir tudo, do início ao fim.  Nessa primeira página constavam ainda os últimos nascimentos registrados no ano de 1897.  Os nascimentos de 1898 começavam só na segunda página do livro.  E qual não foi a surpresa dele em perceber que o segundo registro daquela primeira página era justamente o do bisavô da Fiona.  Ele havia nascido em 1897, e não em 1898.  Por isso a atendente não localizara o assento do seu nascimento.  Tivesse o seu registro sido feito dois nascimentos antes, é muito provável que nada dessa história pudesse ser contada, porque estaria no livro anterior.

De posse do registro, meus pais solicitaram a emissão de uma nova certidão de nascimento, que ficou pronta algumas horas depois.  Com ela, a avó da Fiona, a mãe da Fiona e a Fiona requereram a nacionalidade lusitana.  Graças a isso, meus filhos são portugueses natos.  Talvez isso explicasse a impaciência e a satisfação da atendente pela frustração da busca que ela fizera.

Qual a razão do erro?  Por que se alistar aos dezenove anos, e não aos dezoito?  Nunca saberemos a explicação exata.  Supomos que ele deve ter perdido o prazo para o alistamento militar e mentido a idade para não sofrer nenhum tipo de represália.  Hoje, no entanto, isso pouco importa.

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A escolha de Portugal como destino desta viagem não se deu por causa disso.  No entanto, a partir do momento que Portugal passou a ser o destino da viagem, estava claro que iríamos investir algum tempo na busca pessoal por esse passado: uma visita à aldeia pelo menos; com sorte e tempo, na busca por parentes.

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