Planos frustrados

Este post é a terceira parte de uma história dividida em nove capítulos.  Se você chegou aqui e não quer ficar boiando, leia antes os dois primeiros capítulos clicando aqui.  Renovam-se os avisos: todos os fatos narrados aqui são reais e, para desonra da tradicional linha narrativa de causos deste blog, não há aumento de ponto na contação do conto.  Por outro lado, mantendo o princípio editorial de preservação da identidade de terceiros, algumas datas, alguns nomes de lugares e todos os nomes de pessoas foram substituídos.

*****

A viagem até Palheiros foi muito agradável e sem contratempos.  Chegando perto da aldeia, em uma bifurcação da estrada, havia uma placa, daquelas com jeitão bem antigo, parecendo um marco de concreto caiado com azulejos indicando o brasão e o nome da localidade.  Paramos para tirar uma foto e seguimos em frente.

Palheiros tem uma particularidade em relação ao urbanismo tradicional português, que também nós brasileiros herdamos.  Normalmente, o centro de uma aldeia portuguesa é a praça na qual está instalada a igreja matriz.  Em Palheiros é diferente: a igreja está afastada da cidade, sobre um monte situado do outro lado do rio que a banha.  Por conta disso, o Waze não me indicou passar por dentro da cidade até chegar na igreja, mas pegar um outro caminho que a contornava até chegar na igreja do lado oposto.

O caminho passava por uma estradinha bem apertada.  Se um caminhão viesse do outro lado, principalmente em um trecho de curva, um dos dois teria que sair do asfalto para ceder a passagem para o outro.  Além disso, o traçado era bastante sinuoso.  Não era possível desenvolver mais de 40km/h com segurança.  Apreciando a paisagem e de olho nas eventualidades, segui bem devagar.

E tive que diminuir ainda mais a velocidade quando vi uma placa indicando a realização de obras na via.  Um caminhão munck estava estacionado atrás de cones do lado direito da pista no meio de uma curva à esquerda, auxiliando o trabalho de poda de árvores.  Mas eu não consegui prestar muita atenção à tal obra porque, naquele mesmo trecho, um sujeito gordo, com uma camisa de tamanho insuficiente que não chegava a tocar a bainha da calça, usando uma boina vermelha tipicamente portuguesa, caminhava do lado esquerdo da pista.

Ao perceber a minha proximidade, ele gritou e gesticulou.  Só então eu percebi que havia também um cachorro ali, de porte pequeno, parecidíssimo com uma raposa, a quem os gritos e gestos se dirigiam.  Atendendo à ordem, o tal cachorro rapidamente se camuflou em meio às folhas secas caídas na sarjeta da pista.  Achei aquilo incrível!  Que cão gracioso e obediente.  Dei um toque na buzina agradecendo ao gordo, contornei os cones e segui em frente.  Olhando no retrovisor, vi o cachorro sair do seu esconderijo e alegre pular na direção do seu dono.

Menos de cinco minutos depois, chegamos à matriz.  Estacionei o carro na sombra da igreja e saímos para ver a localidade e tirar umas fotos.  A igreja estava fechada.  Dali era possível ver parte da aldeia do outro lado do rio.  Logo abaixo estava a praia fluvial, feita a partir do represamento do rio.  Em frente à igreja, a casa paroquial, de dois andares.  Havia um outro carro ali.  Chamei na casa paroquial, insistentemente, mas ninguém atendeu.  Bati em todas as portas da igreja, principalmente naquelas atrás da nave, onde normalmente fica a sacristia e a secretaria paroquial, mas também não fui atendido.  Eu esperava que o padre pudesse ajudar nas buscas pelo passado, franqueando o livro de registro de batismos.  Os planos estavam frustrados.  Restava conhecer a aldeia.

Embarcamos novamente no carro e descemos o promontório onde fica a igreja até a beira do rio.  Ali, parei numa sombra e fui até a praia fluvial.  Fiona ficou no carro, resignando-se.  O calor estava forte.  Bebi a água do rio – que parecia muito limpa, dava para ver o fundo – e joguei um bocado de água na cabeça para refrescar.  Batizei-me nas águas do rio da aldeia da família da Fiona, por assim dizer.  Nem ao lhe narrar isso ela se sentiu empolgada a ir ali.

Novamente no carro, cruzamos a ponte sobre o rio em direção à aldeia e percorremos o que parecia ser a única rua da cidade, entre prédios abandonados e fechados.  O objetivo principal, naquele momento, era tirar uma foto da estação ferroviária, com o nome da localidade, para guardar de recordação e servir como testemunha do nosso esforço.

Encontramos a estação facilmente, afinal de contas, numa aldeia de uma única rua, não é difícil achar nada.  Estacionei, desci do carro e tirei umas fotos.  Os trilhos já não chegam mais até ali, foram retirados.  Restou só o leito da ferrovia, em brita.  O mato já crescia alto na plataforma e em meio à brita.  Havia um ar de abandono, de encolhimento ali.  Dentro do carro, o ar era de frustração.  Fiona estava visivelmente decepcionada com o resultado daquela investida.

Demos mais uma volta completa na rua principal, para descobrir que não era a única da cidade, embora inicialmente parecesse.  Devia haver mais umas três ou quatro outras ruas, não mais que isso; com sorte, um quarteirão inteiro, certamente não mais que isso.  Não havia uma viva alma na rua.  Perto do meio dia, o estômago começava a dar aviso de que estava na hora de se preocupar em encontrar um lugar para almoçar.  Dentro do carro, um climão.  Fiona não falava nada.  Estava chateada.  Sem perspectiva.  Havia uma sensação de tempo perdido e de que todo o esforço havia sido em vão.

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