Desistir nunca, render-se jamais

Este post é a quarta parte de uma história dividida em nove capítulos.  Se você chegou aqui e não quer ficar boiando, leia antes os três primeiros capítulos clicando aqui.  Renovam-se os avisos: todos os fatos narrados aqui são reais e, para desonra da tradicional linha narrativa de causos deste blog, não há aumento de ponto na contação do conto.  Por outro lado, mantendo o princípio editorial de preservação da identidade de terceiros, algumas datas, alguns nomes de lugares e todos os nomes de pessoas foram substituídos.

*****

Depois de dar mais uma volta na rua principal da cidade, parei o carro novamente perto da estação de trem, que parecia ser o ponto central da aldeia, com uma ou duas biroscas fuleiras, uma farmácia e… uma agência dos correios.  Enquanto a Fiona remoía sua frustração, eu maquinava.  Puxei o freio de mão com violência com o carro ainda em movimento.  O solavanco surtiu o efeito desejado e a Fiona tirou os olhos do chão e os volveu para mim assustada com a manobra abrupta.

– E aí?  Vamos procurar a sua família ou você quer desistir de tudo e ir para Coimbra?
– É o jeito. Senão a gente vai perder a visita guiada.
– Dane-se a visita guiada! A gente veio até aqui para procurar a sua família. Você quer procurar ou quer desistir?
– Mas eu não sei nem por onde começar…
– Eu sei. Vamos tentar ou não?
– E como você vai fazer?  Por onde você vai começar?
– Simples. No lugar onde se sabe onde todo mundo aqui mora: nos correios!

O rosto dela se abriu como quem concordava com uma ideia genial.  Deixei-a no carro, enquanto eu fui lá no correio tentar a sorte sozinho.  Atravessei a rua e entrei na agência.  Do lado de fora, um cachorrinho estava deitado do lado do tapete.  Sentado na recepção, também fora da agência, um sujeito sentado e bem vestido segurava um pacote grande enquanto falava ao telefone.  A porta da agência indicava que o horário de funcionamento era de 7h às 12h.  Olhei no relógio: 11h54.  “Estou com sorte!“, pensei comigo mesmo.  Empurrei a porta e ela se abriu, deixando sair um ar geladinho.

A agência era pequena.  O espaço para os clientes, entre a porta de entrada e os dois balcões de atendimento certamente não excedia uns 6m².  A funcionária estava atendendo um cliente, de modo que eu fiquei em pé próximo à porta esperando a minha vez, aproveitando o ar condicionado.  Ela, então, interrompeu a conversa e me chamou:

– Pois não?
– Eu queria uma informação, mas eu aguardo vocês terminarem.
– Não, não estou atendendo.  Estamos apenas conversando.  Pode vir.  O que o senhor deseja?

Então eu contei para ela a história, de que a minha esposa descendia de uma família da localidade, que o bisavô dela havia emigrado para o Brasil há cem anos e que fizera família lá, e que nós estávamos interessados em recuperar esses laços.  Por fim, mencionei o sobrenome da família – dois nomes que, juntos, tornavam o caso um tanto incomum, ainda mais numa cidade de pouco menos de dois mil habitantes.  Eu só tinha medo de que toda a cidade tivesse o mesmo sobrenome.  Felizmente, não era o caso.

Quando eu pronunciei o sobrenome da família, ela abaixou o rosto pensativa, com a mão junto à boca.  Matutou por pouco tempo até seu rosto se iluminar com o resgate da lembrança.  Como que pensasse junto na solução, o homem que ela atendia também falou qualquer coisa com ela que eu não consegui compreender.  Eles devem ter percebido o meu rosto atônito, e ela se ocupou em traduzir.

– Eu acho que a Cristina, que mora ali em cima com a Dona Josefa, tem esse sobrenome, mas é só o último.  Se não me engano, o marido dela, o Daniel, era dessa família e ela pode ter adquirido o sobrenome no casamento.  Mas ele morreu tem três meses, de modo que eu não sei lhe dizer ao certo.  Mas aguarde um instante.  Acho que tenho o número do telefone dela aqui.

E puxou o seu próprio telemóvel e começou a procurar o número na memória.  Achou.  Ligou para ela.

– Alô, Cristina?  Aqui é Isabel, da CTT.  Tudo bem?  Estou cá com um senhor que está a procura de alguém com o sobrenome de seu marido.  O sobrenome dele era Marques Prata?  Sim?  Ah, que ótimo.  Como eu faço para eles a encontrarem?  Ah, você está em Coimbra?  Que pena!  Sim, eu vou falar aqui com ele.  Obrigadinha!  Tchau!

– Pois bem, ela disse que o marido dela era dessa família, mas como eu lhe disse ele faleceu tem três meses.  Ela está em Coimbra, disse que volta de tarde.  Perguntou se o senhor pode esperá-la voltar.  Ela mora ali em cima, no Largo da Feira.  Não lembro exatamente onde, mas o senhor pode ir lá procurar.
– E onde fica esse tal Largo da Feira?

Só nesse momento o tal homem que estava no balcão se virou de frente para mim.  Ao mesmo tempo em que eu o reconheci, senti um hálito alcóolico violentíssimo.

– Pois bem, o Largo da Feira fica ali em cima, disse ele, apontando a direção.  Sigas aqui em frente, nessa direção, e siga pela esquerda, subindo.  É lá!

Não foi tão fácil de entender como essa explicação escrita, parte em função da sua difícil dicção, parte em função do hálito ébrio que eu tentava manter a uma distância segura.  Após algumas novas tentativas de explicação, preferi ficar com a da D. Isabel, que foi mais fácil de compreender.

– Mudando de assunto: aquele cachorrinho que está ali fora deitado na porta é seu?, perguntei ao homem.

– Sim!  É meu.  Por que?
– Então foi o senhor que eu vi caminhando na estrada a caminho da matriz ali perto da obra de poda das árvores.  Ele é muito bonitinho.
– Sim, eu estava ali.

O papo não evoluiu além disso.  Despedi-me e saí da agência com o maior sorriso que eu tinha.  Quando entrei no carro, a Fiona, sem nenhuma empolgação ou esperança, me perguntou um singelo e descrente:

– E aí?  Descobriu alguma coisa?
– Não só descobri como já sei onde mora e marquei de almoçar lá na casa deles.  E aí?  Está preparada para conhecer a sua família?

Ela tremeu, titubeou.  Não conseguia fechar a boca de incredulidade.

– Como assim?
– Vamos ou não vamos?
– Vamos.
– Brincadeira…  Quero dizer, a parte do almoço é brincadeira.  Mas já descobri quem é e a moça do correio já até falou no telefone com a pessoa.

E contei para a Fiona toda a história do contato.

– Vamos lá no tal Largo da Feira procurar?
– Vamos!

E fomos.  Seguimos a rua principal, pegamos à esquerda e subimos até chegar no tal largo.  Ali havia várias casas.  As duas primeiras eram muquifos em petição de miséria, depois havia mais três casas em condições razoáveis e, no fim, mais um muquifo em estado de abandono total, mas com traços de ser habitado.  Temi pelo pior.  E se a tal família estivesse numa pindaíba de fazer gosto, em estado semimendicante?  Será que o coração da Fiona aguentaria?  Não seria melhor ficar sem conhecê-los e manter a imagem idealizada?

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