Entre cartadas e blefes

Este post é a quinta parte de uma história dividida em oito capítulos.  Se você chegou aqui e não quer ficar boiando, leia antes os quatro primeiros capítulos clicando aqui.  Renovam-se os avisos: todos os fatos narrados aqui são reais e, para desonra da tradicional linha narrativa de causos deste blog, não há aumento de ponto na contação do conto.  Por outro lado, mantendo o princípio editorial de preservação da identidade de terceiros, algumas datas, alguns nomes de lugares e todos os nomes de pessoas foram substituídos.

*****

Estacionamos o carro no Largo da Feira.  Havia outros carros estacionados ali, alguns com aparência de imobilidade contada em anos, não em horas.  E ninguém, nem uma viva alma, fosse na rua, fosse nas casas.  Quanto mais eu examinava casa por casa e tentava descobrir alguma pista que pudesse me levar a concluir que ao bater em uma delas eu poderia ter uma chance maior de sucesso do que batendo em outra, mais eu me convencia de que somente por puro palpite ou preconceito eu escolheria uma em detrimento das demais.  Aquilo era uma verdadeira loteria.  Não havia a menor chance de eu deduzir que uma pessoa que eu sequer conhecia – e que também jamais ouvira falar na Fiona, quiçá em mim – pudesse habitar em um lugar e não em outro.

Talvez fosse melhor esperar a Cristina voltar de Coimbra.  Talvez fosse melhor ir a Coimbra passear e voltar depois.  Mas isso tornaria a viagem bastante cansativa…  O estômago roncava e era preciso achar um lugar para almoçar.  Eu lembrava de ter visto uma birosca na bifurcação onde eu havia pego à esquerda depois de sair da agência dos correios.  Almoçar me permitiria ganhar tempo para pensar em algo ou até mesmo ter a sorte grande de a Cristina voltar de Coimbra – eu só não sabia ainda como achá-la ali.

Entramos no carro e partimos em direção à tal birosca.  Não andamos nem cinquenta metros e vimos um senhor, aparentando já bastante idade, saindo de casa e colocando algumas tralhas na mala do carro.  Parei imediatamente.  Pedi informação e ele se aproximou.  A receptividade e a simpatia do povo português são as mais adoráveis características que existem naquelas terras.  Eu contava com elas na minha empreitada.  Já havia me beneficiado bastante delas minutos antes na CTT.  Ali, porém, a história seria bem diferente.  Aquele senhor era um tanto arredio.

Percebi a indisposição dele logo que se aproximou do carro e tirei os óculos escuros para que ele pudesse ver os meus olhos e a conversa pudesse ser mais franca.  Não deu muito resultado.  Talvez por me conhecer, talvez por causa do meu sotaque brasileiro, talvez porque aquela história toda parecesse realmente fantástica demais, talvez porque fosse o jeito dele, não deu certo.

Perguntei, a princípio, primeiro pela tal família Marques Prata.  Ele respondeu que conhecia sim, mas que não se lembrava ao certo quem é que tinha esse sobrenome.  Insisti, narrando que a D. Isabel da CTT havia me indicado que eles moravam no Largo da Feira, eu só não sabia em qual dos imóveis.  Ele novamente desconversou.  Sem olhar diretamente nos meus olhos em nenhum momento, apresentava respostas evasivas.  Primeiro disse que se lembrava, mas que também não sabia onde exatamente eles moravam; depois disse que também estava querendo falar com um deles, mas nunca o encontrava…  Enfim, nada do que ele me disse me fez crer que ele realmente sabia do que estava falando.  Ainda que soubesse, não parecia disposto a ajudar.

Ouvindo aquela lenga-lenga toda, eu me convencia de que aquilo era uma baita perda de tempo.  A pista a ser seguida não estava ali.  Era melhor ignorar tudo o que ele me havia dito e partir novamente para a busca do ponto onde eu estava anteriormente.  Aliás, era melhor, antes disso, retomar o plano inicial: almoçar, porque saco vazio não para em pé.  Despedi-me dele, agradeci as desinformações, e segui até a birosca da bifurcação.

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