Nada acontece por acaso

Este post é a sexta parte de uma história dividida em nove capítulos.  Se você chegou aqui e não quer ficar boiando, leia antes os cinco primeiros capítulos clicando aqui.  Renovam-se os avisos: todos os fatos narrados aqui são reais e, para desonra da tradicional linha narrativa de causos deste blog, não há aumento de ponto na contação do conto.  Por outro lado, mantendo o princípio editorial de preservação da identidade de terceiros, algumas datas, alguns nomes de lugares e todos os nomes de pessoas foram substituídos.

*****

Logo que estacionei o carro reconheci o cachorro na porta do estabelecimento.  Era o mesmo que estava na porta da agência dos correios.  Era o mesmo que havia se escondido na sarjeta da estrada quando eu estava chegando na cidade.  Isso significava dizer que seu dono também estava ali, no meu caminho.  “Nada acontece por acaso“, pensei, “é esse cara que vai resolver o meu problema“.

A birosca não era mais do que uma birosca.  Mal servia almoço.  Só lanches.  Sanduíches, salgados e doces.  Nada além disso.  Achei que Fiona iria me obrigar a sair dali imediatamente, mas ela topou comer um salgado (que nem comeu todo).  Na verdade, escolheu até rápido o que queria.  Eu demorei um pouco mais.  Pedi um hambúrguer, que demorou bastante a ficar pronto.  Só então resolvi me sentar.  Fiona já havia escolhido uma mesa exatamente no meio do salão.

No balcão, de costas para o salão, lá estava ele.  Gordo, sanduíche em uma mão, cerveja na outra: Super Bock.  Quando me viu, sorriu e acenou.  Ele era o estereótipo do desleixo consigo próprio: barba por fazer, dentes sujos, roupa suja e curta, unhas pretas de sujeira e o ar ébrio que eu podia sentir de longe.  Mesmo assim, sorri de volta e convidei-o, com um gesto, a se sentar conosco na mesa.  Ele recusou educadamente, fazendo um gesto com as mãos que aparentava significar não estar em condições dignas de se sentar conosco à mesa.  Fui até ele, disse que não me importava, e que fazia questão de que ele fizesse a refeição conosco.  Sendo assim, ele aceitou o convite.

Ao chegar na mesa, apresentei-o à Fiona como a origem de toda aquela história que eu lho havia contado na agência dos correios.  Pode até parecer caricato, mas ele se levantou e retirou rapidamente a boina para cumprimentá-la, fazendo uma mesura.  E começamos a conversar.  O assunto, logicamente, era a minha busca.

Falei para ele que eu havia ido até o Largo da Feira de carro, estacionado, mas nada encontrado.  Ele nem prestou atenção em tudo e já foi logo respondendo, em tom sarcástico, que ir de carro até lá era uma preguiça sem tamanho, porque o local era tão perto que ir a pé era a melhor opção.  O lugar era realmente perto, mas a rua era estreita, entre muros de pedra, na qual passava apenas um carro com pouca margem de sobra.  Ir a pé me pareceu menos seguro que ir de carro.  Sem contar o fato de que era uma subida de inclinação razoável.  Naquele calor, comparando com o ar condicionado, o carro era sem dúvida a melhor opção.  Aquela galhofa me entrou por um ouvido e saiu pelo outro.

Depois ele indagou como é que eu não havia encontrado ninguém, se as explicações que ele dera eram tão simples e óbvias.  Bem, eu não havia entendido 20% do que ele havia dito e, naquela conversa, a minha taxa de apreensão não era muito superior a isso.

Papo vai, papo vem, meu hambúrguer chegou.  Levantei-me para pegar uma cerveja.  Bêbados só confiam em quem bebe, desconfiam de quem não bebe.  Eu precisava beber também para a conversa se desenvolver ainda mais, até o ponto de eu conseguir o que realmente me interessava.  Pedi à moça do balcão e ela mandou eu me servir na geladeira.  Peguei uma Bohemia Puro Malte, da cervejaria Sagres, para experimentar.  Voltei à mesa e ofereci um pedaço do sanduíche.  Ele aceitou pegar apenas uma batata frita.  Depois pegou outra, e mais outra, e assim fomos ficando amigos.

Falamos sobre comida, bebida, a vida em Palheiros, a juventude dos dias de hoje, cachorros…  Ele me contou que não era apenas um, dois cachorros.  Aquele ali na porta era o mais novo, chamado Piloto.  Esse andava sempre perto dele, não importa onde fosse, sempre procurando uma sombra para se deitar.  O outro, preto e de porte um pouco maior, igualmente vira-lata, era mais independente e gostava de andar sozinho, apesar de nunca perdê-lo de vista nem deixar de atender a um chamado.  Seu nome era Bito (ou algo parecido).  E eu não o havia visto ainda.

A cerveja dele acabou e ele pediu licença para se levantar para ir até a geladeira pegar outra.  Mal saiu, a Fiona me interpelou com aquele ar inquisidor que dá frio na espinha:

– O que é que você está fazendo?  O que é que esse cara tá fazendo aqui na mesa comendo com a gente?
– Lembra de quando a gente estava chegando na cidade e eu falei de um cachorro parecido com uma raposa que se escondeu nas folhas ali perto daquela poda de árvores? O cara que tava com o cachorro era ele. Depois, na agência do correio, adivinha quem tava lá? Ele. E agora aqui. Esse cara não tá cruzando o meu caminho por acaso. Ele sabe quem é a mulher e é a nossa melhor chance de conseguir alguma coisa.
– Quem disse?
– Você tem uma ideia melhor?
– Não.
– Então deixa comigo.
– Você está dirigindo. Não deveria estar bebendo cerveja.
– Eu tenho que beber para ele confiar em mim e me ajudar. E é só uma cervejinha long neck. Nada demais. Aqui não tem lei seca.

O papo terminou ali porque o nosso mais novo amigo chegou na mesa.  Brindamos, eu com a minha Bohemia e ele com a sua Super Bock.  E o assunto passou a ser a cerveja.  Ele resolveu me zoar porque eu estava bebendo uma cerveja de menininha.  Do pouco que eu entendi, a Super Bock era a cerveja de um macho alfa.  Eu me fiz de desentendido e ele resolveu ler o rótulo para me mostrar o que estava dizendo:

– Veja aqui, 5,2% de álcool!, disse ele se gabando.

Eu peguei a minha cerveja e, para minha felicidade e boa honra, exibi o teor alcóolico: 6%.  Ele quis conferir, não acreditou.  Viu e me deu os parabéns.  Foi como se ele finalmente me aceitasse, apesar de ter o hábito muito esquisito de subir a rua de carro.  E quis provar.  Disse que nunca havia bebido aquela cerveja, porque era cara.  Gostou, mas manteve o pé em dizer que preferia a sua Super Bock.  Tudo bem, gosto não se discute.  Eu não precisava que ele concordasse comigo em tudo.  Eu só precisava que ele me ajudasse.

Terminado o almoço, fiz questão de pagar a conta.  Ele fez um pouco de cerimônia, mas não muita.  Aceitou de bom grado a gentileza.  Afinal de contas, eu salientei, eu o havia convidado para se sentar conosco.  Apesar de rude, ele sabia se comportar como um cavalheiro.

Saímos juntos da birosca.  Piloto estava lá na porta, balançando o rabo; Bito havia aparecido também.  E ele disse que nos levaria ao Largo da Feira para mostrar onde era a residência dos parentes da Fiona.  E disse também que iria a pé, porque de carro até ali, tão perto, não era com ele.  Eu até poderia ir de carro, ele me perdoaria por causa da Fiona, que riu ao ouvir o gracejo.

Anúncios

Você quer comentar? Clique aqui!

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: