Quem guarda sempre tem

Este post é a sétima parte de uma história dividida em nove capítulos.  Se você chegou aqui e não quer ficar boiando, leia antes os seis primeiros capítulos clicando aqui.  Renovam-se os avisos: todos os fatos narrados aqui são reais e, para desonra da tradicional linha narrativa de causos deste blog, não há aumento de ponto na contação do conto.  Por outro lado, mantendo o princípio editorial de preservação da identidade de terceiros, algumas datas, alguns nomes de lugares e todos os nomes de pessoas foram substituídos.

*****

Subimos a rua: eu e Fiona de carro; o gordo ébrio (meu mais novo amigo e apoiador da causa) a pé, acompanhado pelo Piloto e pelo Bito.  O Bito já ia mais adiante deles, o Piloto fielmente ao seu lado.  Passei de carro pelos três e ele fez sinal como que dizendo para eu esperá-lo ali em cima no Largo da Feira, no fim daquela rua.

Cheguei ao Largo da Feira, parei o carro no mesmíssimo lugar de antes, e tudo permanecia como há uma hora.  É possível que nem o sol houvesse mudado de lugar.  Aliás, a impressão que eu tinha era de que poderiam se passar alguns anos até que algo ali mudasse.

Não demorou nada até que o meu amigo e seus dois acompanhantes chegassem ali também.

– Então…  A gente veio aqui, parou, olhou, mas eu não sei qual é a casa.  E eu não vou sair batendo na casa de todo mundo até achar…

Ele também parou, olhou em volta, coçou o queixo, coçou a cabeça…

– Sabes, eu também não me recordo onde mora a D. Josefa…  Sei que é por aqui, mas…  Olhe cá, venha comigo, tive uma ideia.

E pôs-se a andar, como que continuando a caminhada que o fizera chegar até ali, através do Largo da Feira.  Olhei para a Fiona, Fiona me olhou.  Nenhum de nós sabíamos no que aquilo iria dar, nem o que ele pretendia fazer.  Só sabíamos que ele sabia sobre o endereço da D. Josefa tanto quanto nós – nada.  Mas o que iríamos fazer?  Ele continuava sendo a minha melhor alternativa.  Com um gesto com a cabeça, convidei-a a segui-lo.

– Onde vamos?
– Vamos ali na Junta da Freguesia. Lá alguém saberá dar a informação de onde mora a D. Josefa.
– E onde fica a Junta da Freguesia?
– É aquele prédio ali.

Realmente era perto, mais alguns metros apenas, no fim do Largo da Feira.  O calor era grande, mas fomos até ali com ele.  O prédio tinha as paredes pintadas de branco e portões vermelhos, um aspecto muito mais parecido com um quartel do Corpo de Bombeiros do que com uma junta de freguesia.  A porta estava fechada.  Ele bateu, chamou, mas ninguém respondeu.  Acho que há muito tempo ninguém responderia a um chamado naquele prédio, tal era o seu estado de abandono.  Havia alguns vidros quebrados e marcas de oxidação nas portas metálicas.  Depois vim a descobrir que aquele era realmente um quartel do Corpo de Bombeiros; a Junta da Freguesia era o prédio ao lado.  Há pouco descobri que os Bombeiro se mudaram para um prédio novinho em folha, construído mais ao norte da aldeia.  Talvez o álcool já estivesse fazendo efeito ao meu amigo.

Mas ele não se deu por derrotado.  Ele havia abraçado a minha causa de corpo e alma e não iria largar dela por nada.  Se eu tinha um problema, então ele também tinha um problema.  Problemas existem para serem resolvidos – e ele estava disposto e tinha tempo para resolver.

– Venha comigo, tive outra ideia.

A essa altura eu já não sabia mais onde andava o Bito, mas o Piloto continuava serelepe à nossa volta.  Ele virou de costas e se dirigiu ao outro lado da rua, entrando em uma espécie de acesso que contornava uma escola.  Bem, ali na escola, ao menos, havia movimento.  Na parte de trás, crianças uniformizadas com aventais muito bonitinhos brincavam em um parquinho orientadas por duas professoras.  Pareciam felizes e indiferentes àquele calor.  Atrás da escola havia uma edificação de um único andar, bastante moderna e com porta de vidro espelhado sob uma marquise que nos aliviou do sol.  Não havia campainha, não havia nenhum letreiro, nenhum papel, nenhuma informação.  Tinha um jeitão de ser um espaço público – no sentido de que ali funcionava alguma repartição do governo – mas isso não passava de uma suposição.

Ele bateu no vidro da porta com violência.  Fiquei até assustado.  Não esperou e bateu de novo, denotando inequívoca impaciência.  Quando ia bater a terceira vez, a porta se entreabriu, deixando escapar um ar geladinho lá de dentro.  Um sujeito, um pouco mais novo que eu, pôs apenas o rosto para fora:

– No que posso ajudar?
– Eu quero falar com a Maria do Carmo.
– Sobre que assunto?
– Não interessas, vá chamar a Maria do Carmo e vás logo que eu estou sem paciência para esperar.
– E quem deseja falar com ela?
– Diga a ela que é o João da Quinta. E não faças mais perguntas. Vás logo chamá-la que eu estou cá com esse meu amigo e não quero esperar! Ande!

Finalmente eu descobrira o nome do meu amigo.  Aliás, só naquele momento eu me dera conta de que eu não ainda sabia o seu nome.  O sujeito fechou a porta e foi chamar a tal Maria do Carmo.  O João da Quinta riu e olhou para mim, gabando-se:

– Esses gajos são assim.  Se não falas dessa maneira com eles, vão fazendo perguntas e mais perguntas e não fazem o que tu queres.  Espere a Maria chegar e já descobriremos onde mora a D. Josefa.

A Maria do Carmo não demorou a vir atender a chamada do meu amigo João da Quinta.  Abriu a porta e saiu para falar com ele já com um riso no canto da boca, como se conhecesse aquela figura de longa data.

– Pois não, Sr. João, vejo que continuas a beber…  O que queres desta vez?

A voz dele, ao falar com ela, era de um cordeirinho, bem diferente da arrogância e da grosseria das quais ele se valera para mandar o rapaz chamá-la dois minutos antes.

– Olhe cá, desta vez eu juro que eu mesmo não quero nada. São esses meus amigos aqui que estão a precisar de uma ajuda. Mas a história é complicada e eu mesmo não sei contá-la, então vou pedir que esse meu amigo aqui lhe conte tudo.

Sobrou para mim.  Mas o interessado não era eu.  Então passei a bola para a Fiona, que estava um pouco afastada.  Maria do Carmo riu um pouco, com o ridículo da situação, mas manteve-se disposta a ouvir e ajudar a FionaFiona, então, contou toda a história do bisavô, que era dali de Palheiros e que havia ido para o Brasil muito novo, deixando um irmão na aldeia, e que nós estávamos interessados em recuperar os laços familiares com os descendentes desse irmão.

– Vou ver o que posso fazer para ajudá-los.  Peço que aguarde um instante.

Entrou no prédio, fechou a porta e nos deixou ali fora esperando.  Enquanto eu e a Fiona imaginávamos o que raios aquela mulher iria fazer para descobrir o paradeiro da família perdida da Fiona, o João da Quinta procurou nos tranquilizar:

– Esperemos cá que ela já vai voltar com a resposta.  Fiquem calmos.

Os vidros da porta eram muito espelhados.  Colando o rosto no vidro, eu tentei ver o que havia lá dentro.  Qual não foi a minha surpresa ao ver um monte de velhinhos sentados em poltronas superconfortáveis (como aquelas de massagem em saguões de aeroportos).

– Que lugar é esse?, eu perguntei.
– É o serviço de assistência social da aldeia, ele respondeu.

  Aquilo era um centro de vivência comunitário, onde os idosos da aldeia passavam os dias fugindo do calor e interagindo entre si, uma espécie de ação social do governo voltada para a terceira (no caso daqueles velhos que eu vi ali, quarta ou quinta) idade.  Agora sim a tentativa do João da Quinta fazia todo sentido!  Se havia um lugar onde uma história muito antiga poderia ser resgatada, era ali, onde os protagonistas da história viviam.  Certamente alguém já teria ouvido falar na história e se lembraria de alguma coisa, ou conheceria alguém que poderia dar a pista certa para a nossa busca.  Até ali eu estava oscilando entre a tranquilidade e a desconfiança; dali em diante, passei a oscilar entre a empolgação e a ansiedade.

Uns dez minutos depois, Maria do Carmo voltou.

– Vejamos: pelo que eu pude entender, porque as informações, tanto as vossas quanto as deles estão um pouco truncadas, parece que houve sim um Marques Prata aqui na aldeia que foi para o Brasil, mas ele não deixou um irmão aqui, ele deixou duas irmãs.  A D. Josefa, que mora ali no Largo da Feira e a D. Valquíria, que mora ali mais adiante, no Outeiro.  Parece que o genro da D. Josefa morreu há uns três meses, e ele também tinha esse sobrenome.  Eles disseram que a esposa dele mora com a D. Josefa.

– Já procuramos pela D. Josefa, mas não sabemos qual é a casa dela no Largo da Feira.  Você sabe?
– Não…  Não sei.  Por que então não tentas a D. Valquíria ali no Outeiro?

O João da Quinta não demorou a juntar as peças do quebra-cabeças mental e perceber que a D. Valquíria que ele conhecia – e sabia onde morava – era a tal D. Valquíria de quem se estava falando.  Parecia também que ele só ali descobrira que ela era irmã da D. Josefa, mas eu achei melhor não perguntar nada para não correr o risco de expor sua ignorância.  Decidimos ir até a casa da D. Valquíria, a 500m dali – a pé mesmo.

Após a despedida, já íamos nos afastando quando a Maria do Carmo gritou para o João da Quinta:

– Sr. João!  Nada de bebidas, hein?  E não esqueça do nosso encontro aqui no Serviço Social na semana que vem!  Não vá faltar desta vez que eu te busco lá na Quinta, entendeste?

Ele resmugou um bocado, envergonhado.  Eu fingi que não escutei e tentei disfarçar o riso.  Não foi fácil.

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