Lágrimas e uvas

Este post é a oitava parte de uma história dividida em nove capítulos.  Se você chegou aqui e não quer ficar boiando, leia antes os sete primeiros capítulos clicando aqui.  Renovam-se os avisos: todos os fatos narrados aqui são reais e, para desonra da tradicional linha narrativa de causos deste blog, não há aumento de ponto na contação do conto.  Por outro lado, mantendo o princípio editorial de preservação da identidade de terceiros, algumas datas, alguns nomes de lugares e todos os nomes de pessoas foram substituídos.

*****

A caminhada foi bastante agradável, ao longo daqueles pouco mais de 500 metros que percorremos ao longo da única rua que passava por ali.  Conversamos sobre a vida na aldeia, sobre a vida no Rio de Janeiro, sobre tempos passados, tempos presentes e futuros.  O tal João da Quinta era um sujeito tão agradável e doce quanto ogro.  Acho que, por isso, eu havia simpatizado tanto com ele.  Caminhando ao seu lado, eu me sentia o Asterix; ele, o Obelix – o amigo fiel e obstinado do Asterix, que ajuda o amigo a resolver os mais diversos problemas usando a força bruta e o bom coração, sem ter na educação a sua principal virtude.

Para variar, ele tinha uma imagem idealizada do Rio de Janeiro, como se a cidade fosse apenas praia, calor, mulher e futebol.  Futebol não era muito a praia dele, mas do resto ele disse gostar bastante.  E de cerveja e de caipirinha, lógico.  Ensinei-o a fazer caipirinha, mas devido à ausência de cachaça, recomendei que utilizasse vodca ou bagaceira.

– Veja, eu gosto muito de uma bebidinha.  No verão, em dias quentes como hoje, eu bebo cerveja mesmo.  Mas cá, no inverno, faz muito frio.  Os vinhos cá não são muito bons.  Vinho bom é muito caro, só se bebe no Natal ou em ocasiões muito especiais.  É preciso gastar muito dinheiro para se beber um bom vinho.  Eu até bebo vinho no inverno, para esquentar, mas não gosto muito.  O que eu gosto mesmo é de um bagaço.  Eu gostaria de saber se existe algum remédio ou pílula que eu possa tomar para poder beber sem ter problema, porque os médicos vivem reclamando que eu tenho que parar de beber para não ficar doente, não ter problema no fígado, no pâncreas, no estômago…  Eu já bebo há quarenta anos e até hoje não tive nada, mas eles juram que não vai durar muito.

Infelizmente, nem eu nem Fiona sabíamos de algum remédio para recomendar.  Mas ele não ficou triste.  Continuamos conversando e caminhando.  A cada casa que aparecia no horizonte, eu me perguntava se seria ali que a D. Valquíria moraria.  Umas eram muito bonitas e opulentas, outras bem mais simples.  Novamente, qualquer coisa que eu pensasse sobre o morador de determinada residência não passaria de um palpite.  O “x” do mapa estava na cabeça do João da Quinta.

Não tardou a chegarmos.  Em uma casa ampla, edificada sobre pilotis e com revestimento que denotava uns quarenta ou cinquenta anos de idade, ele parou.  Na frente da casa havia uma pick up roxa estacionada.  A casa possuía uma entrada de garagem lateral que conduzia a um terreno nos fundos que parecia não ser muito grande, olhando de fora.  Do lado direito, uma escada conduzia ao segundo andar, edificada sobre pilotis para corrigir a inclinação do terreno que subia da rua para os fundos da casa.

Paramos ali no portão, em frente à tal escada.  O João da Quinta procurou uma campainha.  Como não encontrasse, bateu palmas e gritou pela D. Valquíria.  Não esperou cinco segundos e gritou novamente.  A figura dócil havia cedido espaço para o ogro que havia dentro dele.  Mais cinco segundos, chamou novamente, deixando transparecer nítida impaciência.  Até que apareceram duas mulheres, vestidas com avental branco roto, com aparência castigada pelos anos de vida na roça, na varanda que havia junto ao patamar superior da escada.

– Pois não.  O que queres?, perguntou uma delas, enquanto mastigava uma fruta com hábitos tão ogros quanto os do meu amigo.
– Quero falar com a Valquíria.
– E o que queres falar com ela que não podes esperar?  Ela está almoçando.
– Não é da vossa conta.  Vá chamá-la e diga a ela que é o João da Quinta que quer lhe falar.
– Que és o João da Quinta eu já sabia.  Mas terás que esperar.  Ela está almoçando.
– Vá chamar, já disse!  Não estou afim de esperar.  Ande!  Ande!

Enquanto a mulher que falou com o João da Quinta foi lá dentro chamar a D. Valquíria, a outra ficou ali na varanda exalando um ar preguiçoso como aquele que toma conta de quem acabou de fazer uma boa refeição.  Ela também não ficou imune ao João da Quinta.

– Escute: já vindimaste?
– Estamos a vindimar desde cedo. Viemos apenas almoçar e já vamos voltar para continuar. Não vês as uvas aí no carro?

De fato, a caçamba da pick-up estava repleta de uvas, só então percebi. A conversa entre o João da Quinta e a moça prosseguiu.

– E tu? Que estás fazendo aqui que não estás na Quinta? Não há nada para fazeres por lá?
– Minha esposa não está em casa, foi a Coimbra resolver uns problemas. Se minha esposa não está lá, não há nada para fazer por lá. Entendeste?

Ela entendeu a piada de duplo sentido feita pelo meu amigo, mas não respondeu. Foi melhor assim. Ele, porém, não se fez de rogado e começou a arrastar galanteios para a mulher, que parecia gostar do que ouvia. Felizmente aquilo não durou muito tempo. Uma senhora, bem velhinha, apareceu, também vestida de avental, no alto da escada.

– Que queres?
– Dona Valquíria, boa tarde. Desça cá que eu tenho umas pessoas que querem falar consigo.
– Quem são?
– São uns amigos, que têm uma história muito antiga para contar à senhora, mas eu não sei contar direito porque… vou deixar eles próprios contarem. Confie em mim, desça cá.

Ela desceu as escadas com alguma dificuldade. No fim da descida, aproximou-se do portão enxugando as mãos no avental branco.

– Pois não.

Fiona nem esperou ser convocada. Aproximou-se e começou a contar a história do seu bisavô, que havia ido para o Brasil deixando um irmão, pai e mãe ali na aldeia. Ao falar os nomes dos seus tataravós (o pai e a mãe do seu bisavô imigrante), a velha se derreteu.

– Esses são os meus avós!
– Então, era isso que eu queria dizer à senhora. Eu sou sua sobrinha-neta, bisneta do irmão do seu pai.

Nem a D. Valquíria nem a Fiona se contiveram. A dignidade da D. Valquíria a obrigou a convidar a Fiona para entrar em casa. Eu preferi ficar do lado de fora, para dar a elas a privacidade necessária para se conhecerem naquele momento. João da Quinta ficou comigo, desta vez calado. Quando olhei para ele, percebi que ele também tentava conter as lágrimas. Havia um bom coração por trás daquela carapaça ogra.

Passado alguns minutos, para quebrar o silêncio, ele foi até a caçamba da pick-up e pegou um cacho enorme de uvas, enquanto gritava para a mulher que permanecia lá na varanda nos observando:

– Vou pegar um cacho contando que não estás a ver nada.
– Não estou a ver nada mesmo, respondeu ela.

Ele comeu umas uvas e largou o cacho todo na minha mão.  Disse para eu comer algumas.  Eu nem estava tão afim assim de comer.  Menos de uma hora havia se passado desde o almoço na birosca lá no início da rua.  Com tamanha permissividade, porém, eu resolvi experimentar.  Peguei uma uva do cacho e comi.  E que coisa impressionante!  Que uva maravilhosa.  Doce, cheia de sabor, totalmente diferente daquelas que eu já comi aqui no Brasil.

– Para que se usam essas uvas?  Para fazer vinho?
– Não, essas uvas não prestam para vinho não.  São uvas de mesa mesmo.
– E de onde elas vêm?
– Eu não sei onde é a vinha da D. Valquíria não.

Ficamos ali comendo as uvas por mais algum tempo.  Até que ele se despediu, dizendo que precisava voltar para a Quinta, porque a sua esposa voltaria para casa em breve e ele precisava estar em casa quando ela chegasse.  Agradeci enormemente a ajuda que ele dera.  Elegantemente, ele disse que não fora nada.  Chamou o Piloto e o Bita, e seguiu seu caminho.

Anúncios

One Comment

Add yours →

  1. Que bom! Enfim um encontro bem sucedido.
    Tirou, pelo menos, uma foto do Piloto e do Bita?

    Não.

Você quer comentar? Clique aqui!

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: