De volta ao Largo da Feira

Este post é a última parte de uma história dividida em nove capítulos.  Se você chegou aqui e não quer ficar boiando, leia antes todos os capítulos anteriores clicando aqui.  Renovam-se os avisos: todos os fatos narrados aqui são reais e, para desonra da tradicional linha narrativa de causos deste blog, não há aumento de ponto na contação do conto.  Por outro lado, mantendo o princípio editorial de preservação da identidade de terceiros, algumas datas, alguns nomes de lugares e todos os nomes de pessoas foram substituídos.

*****

Fiona e D. Valquíria desceram a escada abraçadas.  Vendo a cena, eu fiquei na dúvida sobre quem estava amparando quem.  No fundo, era um abraço daqueles de matar saudades de longo tempo.  Parecia mesmo que elas não se viam há muito tempo.  Ainda com algumas uvas roubadas da pick-up na mão, eu observava aquela cena pensando em como ela havia sido possível: primeiro, pelas idas e vindas, pela quantidade absurda de coincidências que fizeram com que aquilo fosse possível (desde o acaso do achado do assento de nascimento até o fato de chegarmos à sua casa na exata hora da pausa da vindima para o almoço); segundo, pelo fato de que, se fosse no Brasil, onde a violência cotidiana impõe que as pessoas sejam muito mais desconfiadas e reticentes com relação à abordagem de estranhos, e a D. Valquíria havia acreditado em, toda aquela história só por ouvir o nome dos avós e de um tio que ela nunca havia conhecido.  Realmente era tudo muito estranho.  Felizmente, dera tudo certo.

Trocaram telefones, eu fui apresentado à D. Valquíria, despediram-se.  Antes, porém, D. Valquíria deu a indicação de onde exatamente residia sua irmã, no Largo da Feira.  Ela fez questão que nós prometêssemos que iríamos lá na casa dela visitá-la.  A nora dela não estaria em casa, mas ela certamente estaria.  Mais abraços, mais beijos, mais lágrimas e despedimo-nos, desta vez, de vez.

No caminho de volta, feito a pé, Fiona me contou que a D. Valquíria lhe havia mostrado fotos de seus tataravós.  Impressionante que em um lugar tão pequeno e afastado de tudo já houvesse interesse e possibilidade de, no início do século XX, se tirar uma foto.  Igualmente impressionante aquelas imagens terem sobrevivido a mais de cem anos de tantas histórias.  Fiona também me contou que D. Valquíria nunca havia se casado e permanecia com o nome da família, recebido do pai.  Já sua irmã, ao se casar, trocara o sobrenome.  Isso não batia muito bem com a história que a D. Isabel contara na agência dos correios, mas agora essas pequenas divergências pouco importavam.

Novamente no Largo da Feira, acertamos a casa onde ela morava.  Não era a mais chique, nem era a mais descuidada.  Tampouco era uma das que eu escolheria primeiro se tivesse que chutar.  E olha que nem eram tantas assim.

Quando chamamos, ela demorou a atender.  Estava ao telefone com a irmã, que havia ligado para avisar que nós iríamos chegar.  Devem ter se alongado na conversa, naturalmente.  O assunto não era dos mais corriqueiros.  Maldosamente, eu pensava que enfim alguma coisa de novo havia acontecido naquele lugar.  Seríamos história para muitos e muitos anos – ou nem tantos, por causa da idade avançada das duas.

Subimos as escadas até a casa dela, que nos recebeu com incrível simpatia mas um pouco reticente.  Fiona se apresentou e me apresentou.  Contamos a ela a história em detalhes, mostramos fotos, e ela foi se derretendo.  Apesar de ser mais nova que a irmã, D. Josefa sofria mais com o peso da idade: caminhava com dificuldade mesmo a curta distância entre a porta e o sofá da sala, e apresentava sinais claros de reumatismo.  Na sala da casa dela, uma televisão de tubo de imagem, umas plantas e um sofá pareciam mobília da época em que o marido ainda era vivo.

D. Josefa também pareceu muito mais emotiva que a irmã.  Deu-nos beijos e abraços mil na hora da despedida.  As lágrimas escorriam pelo rosto, muito mais que em D. Valquíria.  Partimos, então, rumo a Coimbra.  Antes, porém, faltava fazer uma coisa: voltar à Igreja.  Segundo D. Josefa, era possível visitar a igreja a qualquer tempo.  Bastava pedir a chave na sede do jornal local, que ficava em cima da casa paroquial.

Quando eu ouvi aquilo…  Quer dizer então que eu chamara, gritara, tocara a campainha da casa paroquial e a pessoa que estava ali em cima, no segundo andar, não se interessara em saber o que estava acontecendo?  Ela podia ter me atendido – e reduzido muito a minha busca.  Enfim…  Que eu podia fazer àquela altura?  Só lamentar e voltar lá.

Voltamos.  O tal carro que estava estacionado no pátio da igreja mudara de lugar, parecendo fugir do sol.  Estava do outro lado da igreja agora, aproveitando-se da sombra que ela fazia.  Tocamos e uma mulher nos atendeu.  Prontamente, pegou uma chave que parecia capaz de abrir portões de castelos com um milênio de idade e, com ela, abriu a porta lateral da igreja.  Fez um breve tour pelo seu interior e nos deixou sozinhos para tirar fotos, rezar, etc.  Uma bela igreja, por sinal.  Pequena, mas muito bonita, muito bem iluminada, extremamente bem conservada, um brinco.  Os azulejos estavam todos perfeitos, as imagens também.

Com o acervo lotado de fotos e filmes e fotos para mostrar à família daqui, trancamos a igreja e devolvemos a chave na sede do jornal.  Era hora de rumar para Coimbra.

 Todo esforço havia valido a pena.  Os laços haviam sido resgatados.  Fiona havia recuperado sua família perdida.

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