Desfralde

No fim do ano passado, a escola propôs desfraldar o FergusFiona queria topar, eu fui contra.  Por vários motivos – com os quais tanto a escola quanto a Fiona concordaram: ele ainda tinha dois anos e vinte dias de idade na data proposta, sendo que a idade mínima indicada para o início do processo é dois anos e dois meses; Fergus ainda não falava nada naquela época; era o fim do ano e eu temia que as modificações na rotina, com férias e coisa e tal, pudessem prejudicar o início do processo; ele teve um piriri na semana que antecedia a data programada, o que dispensa comentários acerca do efeito nefasto que isso poderia causar no processo de desfralde; e nós faríamos uma viagem de carro a São Paulo logo depois da data programada para o início do desfralde, e não rola parar de hora em hora em um banheiro de posto de gasolina com criança daquela idade.

Bem, a data foi remarcada e tudo teve início nesse sábado, dia 11 de fevereiro.  O dia que o meu pequenininho ficou grande, deixou de usar fraldas e passou a usar cuecas.

Ele adorou a ideia de ficar grande, mas ainda não entendeu direito o que isso significa.  É sempre assim, eles só querem os bônus; as responsabilidades que vêm atreladas aos benefícios que nos são concedidos tendemos a deixar de lado, se possível passar para outros.  Com ele não foi diferente.  Aliás, não está sendo.  Mas ele até que vem se mostrando bastante desenvolto com a tarefa.  O ruim tem sido convencer ele a colocar qualquer cueca que não seja a dos aviões e a dos carros.  Uma vez sujas, não dá para lavar, secar e passar no tempo de limpá-lo.

Passei esse fim de semana inteiro em casa de olho nele.  Fiona saiu com Felícia para festas no sábado e no domingo, mas eu fiquei com ele em casa, de plantão.  No início, o negócio não foi muito bem.  Os xixis vazaram na cueca um atrás do outro.  Em duas oportunidades, eu percebi algo estranho, perguntei a ele se queria fazer xixi; ele negou.  Menos de um minuto depois, o xixi vazou pelas pernas até fazer uma poça no chão.  Ele imóvel, olhava para mim como quem pergunta o que estaria acontecendo, da onde vinha aquilo, ou querendo dizer que aquilo nunca havia acontecido antes – realmente, ponderações razoáveis do seu ponto de vista.

Peguei a manha.  Logo depois, senti um cheiro de cocô.  Sem evidências, conclui que se tratava apenas de um pum bem fedorento.  Onde tem fumaça, tem fogo, já diz o ditado.  O peido é o aviso da bunda de que atrás vem m…, já dizia o meu pai.  Fiquei de butuca e acertei.  Quando ouvi um grunhido, levei-o rapidamente ao banheiro.  Deu tempo!  Dali para frente, o processo melhorou muito.  No fim do dia, mesmo cansado e um tanto frustrado pelos vários xixis vazados, Fiona me fez ver com números que aquele primeiro dia havia sido melhor que o da Felícia.  Na minha memória afetiva, eu achava que o processo dela havia sido menos traumático, ao menos para mim.  Talvez porque, por ser menina, eu tenha me envolvido menos na tarefa que a Fiona.

No fim do primeiro dia, também, foi a hora de colocar a fralda para dormir.  Sim, porque a fralda da noite continua, só vai sair de cena daqui a um ou dois anos, a depender dele.  Fiona o chamou no quarto e falou:

– Vamos colocar a fraldinha para dormir?

Ao que ele respondeu, enfezado, enfático, com os dois punhos cerrados encostados nos quadris:

– Eu não uso fraldinha, eu uso cueca!

Fiona me perguntou o que fazer.  Respondi para deixar dormir de cueca que depois eu colocaria a fralda.  Dito e feito.  Deu tudo certo.

O segundo dia não foi tão bom.  Com a Fiona de plantão, enquanto eu cuidava de tarefas da cozinha e outros afazeres, o cocô foi duas vezes para a cueca, e não para o vaso – o que só mostra que o meu pavor de ter que limpar o cocô da cueca é tão grande que não me permite cometer erros.  Os xixis, porém, acertamos todos à exceção de um.  Até a Felícia já estava começando a manjar a hora de levá-lo ao banheiro, e entrou no processo reforçando as hostes do lado claro da força.

Fizemos um bolo de Nutella para comemorar a data.  Bem, a ideia da Nutella foi da Felícia.  Por mim seria bolo de bolo mesmo.  Eu aquiesci porque não convém comprar brigas desnecessárias com ela, e porque a data de vencimento do pote de Nutella estava próxima.

Depois que ele dormiu, fui colocar a fralda, como no dia anterior – só que ele acordou e insistiu que deveria ficar de cueca.  Concordei com ele, pus a fralda e vestia a cueca por cima da fralda.  Não o contrariei.  Deu certo.

Hoje de manhã coloquei nele a cueca dos dinossauros.  Ele adorou, nem lembrou dos carros e dos aviões.  E foi para a escola com a autoestima elevada.  Pela primeira vez este ano não reclamou de vestir o uniforme e, a não ser por uma rápida derrapada quase na hora de entrar na escola, não reclamou de ir à aula.

Meu menino está crescendo…

Anúncios

2 Comments

Add yours →

  1. que ternura, Leandro. meninos lindos, esses: Fergus e Fiona. felicidades do tamanho do mundo para todos.

    Obrigado.

  2. Vovó esperou todo o fim de semana a visita do menino de cuequinha aprendendo a fazer xixi.
    Comprei muita fruta de conde, fiz suco de maracujá, lavei o quintal e limpei o pula-pula.
    Mas você não veio!
    Mesmo assim, parabéns pelo progresso.
    Nosso menino está crescendo mesmo…

    Eu não sabia dessa expectativa.
    De mais a mais, sair de casa seria uma aventura. Ainda mais porque o carro ficou com a Fiona.

Você quer comentar? Clique aqui!

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: