OsBar está de volta!

Tanto quanto os judeus esperaram o retorno à Terra Prometida, tanto quanto eles esperam a vinda do Messias, tanto quanto os católicos esperam a volta do Messias, tanto quanto os portugueses esperam a volta do Rei Dom Sebastião, tanto quanto os flamenguistas esperam pela vinda do novo Zico ou mesmo pela volta do Adriano, tanto quanto os fãs dos Beatles esperaram que os quatro voltassem a tocar juntos (até que John Lennon morresse, pelo menos), tanto quanto os fãs de Schumacher esperam pela sua recuperação, tanto quanto tudo isso e mais algumas longas e intermináveis esperas que eu não vou citar aqui porque já está na hora de entrar no assunto, os fãs do OsBar esperaram pelo retorno do Osmar.

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Antes de continuar a ler esse texto, é necessário ter a exata dimensão do que é o OsBar e o que ele significa.  Para isso, você deve ler este texto e este aqui também.

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Foram quatro anos de espera, alimentados com profecias que oscilavam entre lendas urbanas e cartadas de procedência duvidosa.  Foram quatro anos passando pela Rua Lélio Gama, no centro do Rio, olhando para aquela loja fechada, ainda com duas caixas de som penduradas na empanada situada sobre a marquise do prédio nº 75, entre ripas de madeira.  Foram quatro anos lamentando a falta de um belo Bife Ancho, de comida farta e bem feita, e até mesmo das clássicas grosserias do Osmar.

Não há mal que sempre dure, nem bem que nunca acabe.  Toda espera tem o seu fim.  E a minha espera chegou ao fim hoje.  Às 11h30, peguei o carro e despenquei-me para lá, em abalada carreira.

*****

Manja aquela ansiedade que dá quando você tem lá os seus quinze anos e marca um encontro com a pessoa amada?  Você está um pouco atrasado, imagina que ela já esteja à sua espera no ponto de encontro.  Conforme você vai chegando perto o estômago embrulha, o coração sobe até a garganta, você já nem presta atenção em mais nada no caminho, tropeça, esbarra nas pessoas e pede desculpas sem nem olhar para elas, até que avista a pessoa lá, parada, à sua espera.  Ela brilha diante de seus olhos mas quando se vira para você…

*****

Quando eu cheguei no Osbar deparei-me com uma porta de correr belamente decorada, pintada de branco.  Só entrei porque havia um cartaz de papelão escrito à mão “Bife Ancho”, dentre outras coisas que eu nem perdi o tempo de ler, porque era o Bife Ancho que me interessava.  Incrédulo, abri a tal porta e senti o agradável ar condicionado me refrescar.  Entrei, fechei a porta atrás de mim, tirei o óculos escuro e tentei entender.  Eu tinha entrado no lugar errado…

– Aqui é o OsBar?, perguntei com um tom de nojo na voz.
– Sim, aqui mesmo.  Está diferente, né?, ela respondeu, com ar de satisfação.
– Está diferente demais, balbuciei ainda incrédulo.

Ao invés do balcão com bancos “bunda de fora”, mesas de madeira com cadeirinhas comportadas.  Ao invés do quadro negro com os pratos do dia, um cardápio bonitinho feito de papelão reciclado (que eu me recusei a ler).  Ao invés dos azulejos bege, azulejos brancos limpíssimos, bonitos e colocados só até a metade da parede, encimados por uma pequena prateleira repleta de garrafas de cerveja artesanal e pintadas dali para cima com um azul acinzentado.

– Não se preocupe, está diferente mas continua tudo igual, com o Osmar comandando a cozinha, ela disse apontando para o fundo do restaurante onde, atrás de um pequeno balcão de inox que lembrava muito o original, a inconfundível figura do Osmar pilotava sua prensa ao lado de um ajudante novo com cara de assustado.  Só então relaxei e sentei.

A moça tentou me dar as opções.  Pobre coitada.  Interrompi-a:

– Bife Ancho, salada verde, arroz, feijão e farofa.
– Não temos arroz nem feijão.  Estamos servindo salada de batata.  Agora ela estava constrangida.  Quase me pediu desculpas com os olhos.
– Como é que é?  Não tem o feijão do Osmar?
– Não…
– Aipim frito ou batata?
– Aipim.

Ela repassou o pedido para a cozinha oralmente.  Nada de papel, nada de sistema eletrônico.  De boca mesmo.  Não poderia ser diferente com o Osmar.  Falou para ele, tá falado.  Pode ficar tranquilo que nenhum pedido vai sair antes do seu; nenhum pedido vai sair diferente do seu.  O ser humano tem que ser ético como ele é ético.  Ao ver aquilo, regozijei-me na cadeira e sorri discretamente.  Eu também sabia que não precisava dizer o ponto da carne, porque o ponto da carne é o do Osmar, não o do cliente.  Não gostou?  Então vá comer em outro lugar.

Não demorou nada até que um belo pote de salada verde me fosse servido.  E um pote de salada de feijão fradinho também (que eu sequer pedira mas, conhecendo bem o Osmar, entendi o que significava).  Nem terminei de comê-las, chegou o meu belo Bife Ancho (com letras maiúsculas sim, porque ele merece) acompanhado de uma salada de batata com maionese.  Cortei um pedaço trêmulo, misto de fome com ansiedade.  Comi e fui ao céu.  Sim!  o Osmar estava de volta à ativa.  Logo depois chegou mais um pratinho com novo pedido de desculpas da moça que me atendia:

– Olha, ele mandou aipim e batata.
– Se o Osmar mandou, quem sou eu para dizer que não vou comer?

Ela riu.  Ambos sabíamos o que estávamos falando.

*****

Ao terminar a refeição, pedi para fechar a conta.  Nada de papel, direto no caixa.  O cliente diz o que consumiu e o caixa confia nele.  No caso, tudo muito fácil porque o caixa era a própria moça que me servira.

– O que houve?  Eu estou há tanto tempo esperando por essa volta…

Só aí percebi que ela tinha um discreto sotaque mineiro.  Até então, a formalidade impedira essa percepção.  Ali já era conversa fiada; talvez por isso o sotaque tenha se revelado.

– O restaurante ficou fechado quatro anos, né?  Nesse tempo o Osmar viajou, depois se dedicou à marcenaria, chegou a se profissionalizar, mas cansou.  Era muita confusão e…  o que ele gosta mesmo é disso aqui, né?  Por isso é que eu acho que ele pagou o aluguel esse tempo todo, mesmo fechado.  No fundo, ele queria voltar.  E agora voltou.  A gente ainda está recomeçando. 

Pegou um cardápio e me mostrou:

– A ideia era servir só sanduíche, esses aqui.  Mas aí o pessoal começou a pedir e ele resolveu atender, então esta semana ele voltou a fazer refeição.  Por isso que hoje só tem as duas opções, o Ancho e a Tilápia, não tem arroz nem feijão, mas aos poucos vai tudo voltar como era antes.  Mês que vem a gente vai recolocar as mesinhas e cadeiras ali fora para o happy hour…

Fiz questão de dizer a ela tudo o que eu pensava sobre o Osmar e aquela volta.  Fiz uma promessa de voltar toda semana.  Ela me deu um cartão de papelão com os telefones do OsBar.  Querendo saber o cardápio do dia, bastaria ligar ou mandar uma mensagem por volta de 11h.  Pena que semana que vem é carnaval.  Na outra, com certeza, estarei lá.  Quem quiser ir, só chegar: o coração do Osmar e o OsBar são grandes o suficiente para todos.

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2 Comments

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  1. Caramba, finalmente. Nem acredito! Longa vida ao Osbar!

    Voltarei.

  2. Bom saber que o happy hour também vai voltar! E que, apesar de todo o visual novo, o Osmar continua lá dentro com o mesmo humor de sempre rs

    Sim! Com o mesmo bom humor!

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