Sobrevivendo

Era só mais um Silva que a estrela não brilha
Ele era funkeiro mas era pai de família

Já deve ter havido um tempo em que viver no Rio de Janeiro era apenas uma questão de estar na cidade, morar nela, trabalhar nela, frequentá-la. É provável que eu tenha pego um pouco dessa época nos primórdios dos meus 37 anos de vida. No entanto, eu nada lembro.

Desde que eu me dou por gente, viver no Rio não é apenas uma questão de ter um comprovante de residência que ostente um CEP do município, é uma questão de malandragem. Não aquela malandragem maliciosa do vagabundo que ganha o sustento batendo carteiras e aplicando pequenos golpes financeiros às viúvas e amorosos às donzelas, cada qual com a sua inocência. Nada disso! Refiro-me àquela malandragem que vem da esperteza de ser carioca, de não entrar em furada, de não dar bobeira na rua, de não se expor a situações de risco que qualquer carioca sabe ser notório.

Era um domingo de sol, ele saiu de manhã
Pra jogar seu futebol, levou uma rosa para a irmã
Deu um beijo nas crianças, prometeu não demorar
Falou para sua esposa que ia vir para almoçar

O risco de ser vítima de um crime existia, nessa época, mas ele estava adstrito a determinadas esquinas e a determinadas horas que o carioca médio tinha em seu mapa mental. Não sei ao certo se eu aprendi os meandros desse mapa ou se eu já nasci programado para saber. O fato de eu ser um carioca da gema me bloqueia tal discernimento. Eu sempre soube onde a quebrada era sinistra e onde não era; que horas eu podia passar em determinados lugares e que horas não podia. E isso me manteve praticamente ileso durante 37 anos. Aliás, essa sagacidade ainda me mantém ileso.

E, por crime, naquela época, leia-se um roubo, daqueles em que o criminoso exibe uma arma discretamente para reduzir qualquer pretensão de resistência da vítima a praticamente zero.  Alguns, mais elegantes, sequer exibiam a arma; apenas sugeriam a sua presença.  Costumava ser suficiente.  Se a vítima empreendesse uma fuga, ele também empreendia a sua, na direção oposta, abortando a tentativa.  Se a vítima reagisse, qualquer coisa poderia acontecer.  Por isso, ninguém reagia.  Todos tinham muito a perder.  Era assim que funcionava o código de conduta.  Perdiam-se os anéis, mantinham-se os dedos.  E a vida seguia.  Violenta, mas seguia.

Era trabalhador, pegava um trem lotado
Tinha boa vizinhança, era considerado
E todo mundo dizia que era um cara maneiro
Outros o criticavam porque ele era funkeiro
O funk não é modismo, é uma necessidade
E pra calar os gemidos que existem nesta cidade

O tempo passou e a vida perdeu o sentido.  O tal código de conduta foi rasgado pelos criminosos cariocas.  Matar passou a fazer parte do ofício; morrer tornou-se um risco comum.  Não se morre mais por reagir, não se morre mais tentando salvar um filho ou a namorada, não se morre mais apenas por causa de um movimento brusco, um dedo nervoso ou um acidente do gênero.  No Rio de Janeiro, hoje, qualquer um pode morrer violentamente a qualquer hora.  Aqui, não mais se vive: se sobrevive.  No Rio, só morre de causas naturais quem não tem o infortúnio de ser um entre algumas centenas que perdem a vida dia após dia, noite após noite.  É muito fácil morrer violentamente no Rio de Janeiro.

Mas naquela triste esquina um sujeito apareceu
Com a cara amarrada, sua alma estava um breu
Carregava um ferro em uma de suas mãos
Apertou o gatilho sem dar qualquer explicação
E o pobre do nosso amigo que foi pro baile curtir
Hoje com sua família ele não irá dormir

Todos os dias, sem exceção, os jornais estampam manchetes de pessoas que perderam a vida violentamente.  Não falo dos crimes passionais, tampouco daqueles praticados por psicopatas.  É de latrocínio que eu falo, é de homicídio puro e simples mesmo.  Ontem foi uma facada em um jovem na praia; antes de ontem foi um tiro em um pai de família que dirigia seu veículo às 21h30 numa rua próxima da minha casa.  Antes de ontem…  Essa lista não termina nunca.

Não se vive mais nesta cidade.  Sobrevive-se.  O carioca não é mais sensível a acidentes aéreos, a terremotos e outras tragédias coletivas.  O seu cotidiano é bem pior que a mais incrível artimanha da natureza.  E, a cada dia que passa, parece ficar ainda pior.

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