Lisboetando

Esta série de relatos da viagem anda devagar…  Aliás, o blog anda devagar.  Eu ando devagar.  O sono me consome.  Há uma semana sofro com maldita torcicolo que há muito não me apanhava.  Há dez dias sinto dores de cabeça todos os dias e todas as noites.  Sorte a minha que dipirona é um remédio barato e, por enquanto, eficaz.  No entanto, já estou com medo de me tornar dependente químico dela.  Imagino-me numa reunião de narcóticos anônimos…  Não sei se conseguirei levar aquilo a sério o suficiente.  Pelo menos renderia histórias para contar e agitar este marasmo.

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Impressionante como Lisboa mudou em quinze anos.  Não apenas em obras de melhorias urbanas, que foram muitas.  A cidade deixou de ter um ar provinciano para se tornar uma cidade do mundo, cosmopolita; deixou de ser a capital dos portugueses e se tornou mais um grande destino turístico europeu.  É como se os olhos da Europa tivessem finalmente se voltado para ela; é como se os estômagos tivessem finalmente se rendido à sua farta gastronomia; é como se os corpos europeus tivessem finalmente entendido que o clima lá é muito melhor do que nas gélidas cidades do norte; é como se as mentes tivessem finalmente entendido que o sorriso português compensa qualquer mais valia que outros países possam oferecer.

E isso resultou em uma série de modificações do jeito lisboeta de ser e viver.  Por exemplo: o preço da hospedagem em Lisboa disparou e hoje se equipara ao de muitos destinos badalados da Europa – sinal evidente da sua ascensão nessa hierarquia.  Esse fato criou um vácuo de mercado que, aliado às inovações tecnológicas ocorridas nesses quinze anos (principalmente o surgimento do AirBnB), alterou completamente o perfil de um do bairro mais antigo e tradicional de Lisboa: a Alfama.

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Lisboa é uma cidade com sete colinas, assim como Roma.  A colina primaz, a mais antiga, a primeira a ser ocupada, a mais alta e sobre a qual se assenta, ainda hoje, o castelo que serve de cartão postal e cédula de identidade da cidade é a de São Jorge.  Adjacente a ela está a Colina de São Vicente.  Derramando-se de seus topos até o rio Tejo está o bairro da Alfama – a ocupação mais antiga de Lisboa.

Surgiu como arrabalde da fortificação situada no topo da colina do Castelo e depois foi envolvido por uma muralha da qual restam pouquíssimos testemunhos.  Na Idade Média, com a consolidação do processo de Reconquista e a consequente perda da função militar defensiva do castelo e das muralhas, esse aparato defensivo perdeu atratividade.  Isso gerou uma migração dos ricos para outras regiões mais próximas à foz do Tejo, ficando ali apenas a população menos abastada.  O local se degradou.

Até o fim do século XX, o bairro era sinônimo de problemas sociais e sua população envelhecia, aprisionada ali pela incapacidade financeira de promover reformas ou se mudar para outros lugares melhores.  Quando eu estive lá, há quinze anos, só havia senhoras idosas nas janelas, vestidas em aventais ou de preto.  Provavelmente se conheciam todas, desde a infância.  Os prédios caíam aos pedaços.  Cirolas e lençóis estavam sempre pendurados nas janelas e varandas, compondo a paisagem.

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Como hoje é dia de vídeo, aí vai um que tenta explicar tudo isso.  Tenta, mas não consegue.  Porque a Alfama não é só um bairro.  É um estilo de vida, é uma vida inteira, um organismo próprio dentro da cidade.

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Se a Alfama, pelo seu modo de vida de quinze anos atrás, tivesse um par no Rio de Janeiro, esse par seria o Morro da Conceição.  Ou, talvez, Santa Teresa.  Serve a comparação apenas a título de ilustração.

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Mas tudo mudou, e mudou rápido.  Aquela população envelhecida sumiu.  As velhinhas, possivelmente, morreram todas, ou quase todas porque as senhoras de meia idade também envelheceram e se tornaram as velhinhas da vez.  Apossaram-se das residências investidores de olho no crescente mercado turístico lisboeta.  Aquela lacuna de mercado foi preenchida com o aluguel desses imóveis para temporada.

Hoje muitos prédios da Alfama estão reformados; e muitos apartamentos não possuem mais um morador fixo – estão disponíveis para locação de curta duração, a preços bem mais acessíveis que os hotéis da cidade.  Conversando com locais, eles estimaram (acho que com um certo exagero) que 80% dos imóveis da Alfama hoje se prestam a esse fim.  Foi num desses apartamentos que me hospedei – muito bem, por sinal.

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Atualmente, as ruas de Lisboa, especialmente da Alfama, estão infestadas por turistas das mais diferentes nacionalidades.  Tantos que já se aproximam da linha do insuportável.  Motonetas (que lá se chamam “tuk-tuk”) pululam nas curvas de suas ruas, em movimentos tão ágeis quanto perigosos.  Levam turistas para cima e para baixo, buzinando e fazendo um barulho horroroso.

Batedores de carteira circulam são tão discretos quanto onipresentes.  A polícia faz de tudo para pegá-los, mas é quase impossível fazer um flagrante desse tipo de crime.  Lá eu tive a notícia de que alguns haviam sido capturados dias antes.  Ações como essa, porém, não são capazes de erradicar o problema.  Recebi da polícia, em uma ação de conscientização, uma fita azul (dessas como as do Senhor do Bonfim) com os telefones e as orientações de segurança, seguida da recomendação de colocá-la no braço para facilitar o acesso a tais informações em caso de necessidade (lsbetur@psp.pt – tel. 213 421 623 (24h) ou o número de emergência 112).  E lembrei que, quinze anos antes, minha irmã havia sido vítima de um desses batedores de carteira, cujo trabalho é bastante facilitado pelas multidões, hoje muito mais volumosas que naquela época.  Mas isso é outra história…

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O importante mesmo é que o pôr do sol continua lindo, visto da Alfama, com o Tejo a correr lentamente pelos pés da Colina do Castelo em direção ao Atlântico.  O Castelo de São Jorge continua lá em cima, respeitosamente imponente, marcando o principal cartão postal da cidade.  E, principalmente, os lisboetas, habitantes ou não da Alfama, mantém a mesma amabilidade que faz qualquer turista se sentir em casa, mesmo tão longe dela.

Fim de Tarde em Lisboa
Fim de Tarde em Lisboa
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