O Palácio Nacional de Sintra

O post demorou um pouco mais para sair do que o imaginado inicialmente (e prometido).  Mesmo assim, com quase três semanas de atraso, lá vai.

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Se você procurar por imagens de Sintra no Google perceberá que a maior parte delas é das torres amarelas e vermelhas do Palácio da Pena.  Não é dele que eu vou falar, mas do Palácio Nacional de Sintra.  O Palácio da Pena fica no alto de uma montanha proeminente, com vista privilegiada do centro da cidade.  É um Palácio moderno, construído no século XIX, com banheiros – pasmem!  O Palácio Nacional de Sintra, por sua vez, é um prédio histórico, construído aos pouquinhos, século após século, rei após rei, com influências e características arquitetônicas diversas (medieval, gótica, manuelina, renascentista e romântica), situado no centro da cidade (que cresceu ao seu redor) mas que não é tão bonito e colorido, do ponto de vista externo, quanto o Palácio da Pena.  Sua principal marca visual talvez sejam as imensas chaminés cônicas da cozinha.  Mas já chegaremos a elas.  Antes, vamos começar pelo princípio.

Palácio Nacional de Sintra
As icônicas chaminés da cozinha do Palácio Nacional de Sintra

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Palácio Nacional de Sintra
Terreiro e fachada do Palácio Nacional de Sintra

Chegar cedo no Palácio Nacional de Sintra não é sinônimo de entrar primeiro.  Algum conchavo não declarado publicamente no site do Palácio permite que excursões visitem o recinto antes do seu horário de abertura.  Você, visitante solitário, tem que esperar até o horário de abertura para comprar seu ingresso e entrar no Palácio.  Algumas excursões entram até meia hora antes do horário de abertura, outras ficam ali do lado de fora esperando o horário para entrar.  Não me perguntem a que se deve o tratamento tão diferenciado, talvez seja melhor não saber.

Palácio Nacional de Sintra
Fachada do Palácio Nacional de Sintra

Fato é que, uma vez que você (que não está em nenhuma excursão) tenha o ingresso, não precisa esperar a fila das excursões para entrar.  Orientado pelo staff do Palácio, passei a frente de duas excursões (cerca de cem pessoas) e entrei no Palácio poucos minutos após as 10h – fui o primeiro visitante não excursionado do dia.

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A compra do bilhete e a entrada se dão pela arcada da sua fachada principal, voltada para ampla praça à sua frente (chamada de Terreiro).  A visita começa subindo as escadas situadas após os arcos, que levam à Sala dos Archeiros – uma espécie de antessala para recepção dos visitantes deste e de outros tempos.

Palácio Nacional de Sintra
A visita começa subindo as escadas, mas as excursões entram antes de você

Dali se tem acesso à Sala dos Cisnes, que tem esse nome por causa dos cisnes desenhados nos caixotões do teto.  É o maior espaço fechado do Palácio, e era destinado a receber os eventos mais significativos da vida palaciana.  Foi cenário de celebrações e recepções, e ainda recebe banquetes oficiais do Governo Português.

A visita continua pela Sala das Pegas, cujas janelas descortinam a Serra de Cintra até o Castelo dos Mouros, no seu topo (vale a pena uma foto!).  Reza a lenda que foi nesta sala que o rei D. Sebastião ouviu Luís de Camões ler seu poema épico Os Lusíadas.  A decoração do teto, com aves (chamadas “pegas“, uma espécie de corvo) nos caixotões, seria uma sutil resposta da rainha ao flagrante de um ato de infidelidade de D. João com uma de suas aias – há no teto 137 pegas, supostamente o mesmo número de aias do palácio.  As pegas são o símbolo da fofoca e da intriga; todas elas carregam em seus bicos fitas com o lema de D. João: “POR BEM”, um lema que estaria a perigo caso ele insistisse em suas aventuras.

Palácio Nacional de Sintra
Teto da Sala das Pegas

A sala seguinte é o Quarto de D. Sebastião, que, acredita-se, o tenha utilizado como quarto de dormir durante suas estadas no Palácio.  Ele contém uma decoração de azulejos nas paredes de notória inspiração mourisca.  Uma de suas portas leva o visitante à Sala das Sereias, onde se situava o guarda-roupa real, uma espécie de closet daquela época.  Ali há uma porta em mármore branco que dá acesso a uma escada em caracol ligando diretamente à Sala Árabe, mas não é por ali que a visita segue.

A visita segue, sim, em direção a um dos aposentos mais icônicos do Palácio: a Sala dos Brasões.  Localizada no ponto mais elevado do Palácio, é o expoente máximo da intervenção manuelina no edifício e considerada a mais importante sala heráldica de toda a Europa.  Sua cúpula tem fecho oitavado, com as reais portuguesas encimadas pela serpente alada da dinastia reinante de Avis.  Ao seu redor estão desenhados os brasões dos oito filhos do rei D. Manuel I com a segunda mulher, D. Maria (filha de Fernando e Isabel, os Reis Católicos de Espanha): seis filhos (brasões em escudo) e duas filhas (brasões em losango bipartido).  Acima dos veados desenhados nos painéis inferiores há oito grandes veados com listões brancos nas hastes.  No nível inferior estão pintados os brasões das 72 famílias nobres mais influentes do reino, assentes no corpo de veados sobre cujas cabeças repousa o timbre de cada família.  Na inscrição que rodeia a sala pode ler-se uma referência às armas representadas: POIS COM ESFORÇOS LEAIS SERVIÇOS FORAM GANHADAS COM ESTAS E OUTRAS TAIS DEVEM DE SER CONSERVADAS.  Os painéis panorâmicos de azulejos “azuis e brancos” nas paredes ao redor da sala representam cenas bucólicas e de caça, inspirados em gravuras da época.

Palácio Nacional de Sintra
Teto da Sala dos Brasões

Dali se tem acesso ao Quarto-Prisão de D. Afonso VI.  D. Afonso VI foi um rei português que permaneceu encarcerado e vigiado nesse aposento durante nove anos por ordem do irmão (D. Pedro II), na sequência do seu afastamento por incapacidade para reinar.  Ele acabaria falecendo nesse quarto em 1683.  Uma curiosidade sobre tal aposento, é que ele é o único do palácio que possui grades de ferro.

Palácio Nacional de Sintra
Quarto-prisão

A visita prossegue pela Sala Chinesa (assim chamada por abrigar um monumental Pagode da dinastia Qing, construído na China, no final do século XVIII ou no início do século XIX), pela Capela Palatina (destinada ao culto cristão no período do rei D. Dinis com a invocação do Espírito Santo, representado nos afrescos das paredes de pombas carregando um ramo de oliveira no bico) e pela Sala Árabe (o mais provável quarto de dormir de D. João I, que teria instalado a tal escada caracol que levaria ao seu guarda-roupas, e assim chamada por sua decoração e pela presença de uma fonte de água corrente, tradicional na cultura árabe).

O meu aposento predileto ali fica mesmo para o final: a cozinha.  Célebre pelas suas duplas chaminés monumentais, de 33 metros de altura, que marcam o perfil da vila histórica de Sintra, ela tem dimensões suficientes para produzir grandes banquetes de caça, uma das ocupações preferidas da corte.  No interior, destacam-se os dois grandes fornos, para além de uma estufa e equipamentos de cozinha em cobre estanhado pendurados no teto (marmitas, peixeiras, panelas, tachos, caçarolas e frigideiras).

Em algum ponto da visita, não lembro exatamente em qual momento, também se tem acesso a um delicioso pátio interno do Palácio, em cujo centro há um padrão em estilo manuelino e no canto uma árvore que faz sombra e refresca a Gruta dos Banhos.  Esta, por sua vez, é decorada com cenas bíblicas, pagãs e mitológicas.  O curioso ali é notar que a água dos banhos brotava de duas linhas de minúsculos orifícios nas paredes, que refrescava o ambiente em dias de maior calor.

A visita termina nos jardins do Palácio, de onde se tem acesso à lojinha e à saída por uma espécie de cocheira antiga.  A lojinha não é tão sensacional assim.  E a visita é bem curtinha, pode ser feita em aproximadamente uma hora, com calma.

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