Óbidos

A menos de 100km do Palácio Nacional de Sintra está a vila de Óbidos, outro bate-volta clássico a partir de Lisboa.  Embora seja um município razoavelmente grande, o que interessa nele (turisticamente falando) é a vila amuralhada que constitui o seu principal núcleo populacional.

Dizer que Óbidos é linda, que vale a pena visitar, tecer outros elogios e incentivos é chover no molhado.  Não vou perder o meu tempo aqui falando disso.  Há coisas mais interessantes para se falar sobre Óbidos.

Óbidos
Cena comum em Óbidos. Não tem como não achar a cidade bonita

A primeira coisa interessante é saber que ali, dentro da muralha e nos seus sopés, moram cerca de 2.200 pessoas.  Pode parecer pouco, mas olhar aquela cidade anacrônica e imaginar que tanta gente ainda vive ali, cercado por muralhas defensivas, é um negócio meio doido.  Mais doido ainda se você pensar que essas pessoas eventualmente entram na cidadela com seus automóveis.

Ao que consta, a muralha tem 1565 metros de perímetro (alguns trechos com mais de 13 metros de altura), planta trapezoidal irregular e sua área é de aproximadamente 14,5 hectares.  Há seis acessos ao interior da muralha, mas o principal (por onde 90% dos turistas entram e saem) é a Porta de Nossa Senhora da Piedade, situada quase na extremidade sul da muralha – na minha opinião, é o que há de mais bonito e de maior interesse turístico na cidadela.

A porta hoje não tem mais função defensiva, mas essa característica é marcante em seu desenho arquitetônico.  Quem passa por ali, em geral, se limita a olhar par a sacada existente no alto do bastião, entre os dois pórticos, com parede revestida de azulejos do século XVIII.  Ela, porém, é bem mais que isso.  Quem tiver a oportunidade de ver um carro tentar entrar ou sair dali, entenderá.

Óbidos
Uma sacada perfeita para besteiros fazerem a festa serve de pretexto arquitetônico para a entrada de uma capela

Para começar, não é apenas uma porta: são duas – uma exterior e outra interior.  E, notem, elas são completamente desalinhadas.  Entre elas, há um bastião completamente fechado, encimado pela varanda mencionada anteriormente.  O que isso quer dizer?

Imagine um exército tentando invadir aquela cidadela à moda clássica das batalhas medievais.  Após cerco, tentará forçar a porta com aríetes.  Ao romper a porta, perceberá que não basta a sua infantaria entrar em velocidade, correndo cidadela adentro – com vitória praticamente assegurada.  Ela cairá em uma bela cilada: ao se empenhar na clássica corrida porta adentro, a infantaria se deparará com um paredão de pedra e necessitará de muita articulação para fazer a curva e dar de frente com outra porta fechada.  A curva não permitirá o uso de aríetes para rompê-la.  Mais que isso, da tal sacada, arqueiros e artilheiros leves podem fazer uma festa contra os invasores atônitos (e espremidos, sem saída); se utilizarem fogo, então, a coisa pode se tornar, literalmente, um inferno para os invasores.

Óbidos
Do alto da muralha bolas de fogo podem tornar o interior do bastião (com portas desalinhadas) um inferno para tropas invasoras

O curioso de tudo isso é que a lenda acerca da construção e da manutenção das muralhas até os dias de hoje – diferentemente de inúmeras outras fortificações defensivas portuguesas contada pelo simpático dono do Ibn Errik Rex, o bar mais famoso da cidade, situado na rua principal (chamada Rua Direita).  Sente-se lá, peça uma ginjinha, e peça para ele lhe contar a história das muralhas e o porquê de elas ainda existirem.

Mais que isso, não digo.  Não neste post, que já está longo demais.  No próximo, talvez.

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