Sr. Valentim

Foi ontem à noite que, a pretexto de uma escusa em um outro assunto, fui informado do falecimento do Sr. Valentim.  A notícia entristeceu-me.  Falecera no domingo, o sepultamento foi ontem de manhã.  Só tive força de perguntar: “ele morreu antes ou depois do jogo?

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Sr. Valentim era daquelas pessoas que já eram velhas quando eu passei a me dar por gente.  Alto, magro, jamais me negara um “bom dia”, com um aceno e um sorriso largo.  Mesmo quando eu ainda era um fedelho e podia ser tratado como tal por adultos, ele sempre me tratou com o respeito e a cordialidade que dirigia a qualquer adulto.  Nunca fomos amigos, éramos apenas vizinhos.

Sr. Valentim também era daquelas pessoas verdadeiramente boas, que não existem mais hoje em dia.  Não uma pessoa boa do tipo ativo, que estava sempre fazendo bondades a olhos vistos.  Não.  Ele era aquela pessoa que ninguém era capaz de lhe desejar algo ruim, porque eu jamais testemunhara um gesto seu que denotasse algum tipo de maldade.

Aliás, houve uma oportunidade em que lhe desferiram golpes maus.  Ele não reagiu, pelo contrário, chorou de tristeza por causa da maldade de seu agressor.  E, vejam, a maldade que sofria, naquela oportunidade, era a revelação de um gesto de caridade extrema secretíssimo que ele e sua esposa praticaram num passado longínquo, daqueles novelescos.  Em respeito à sua memória, à sua bondade, e à privacidade e à intimidade das pessoas envolvidas, que continuam vivas, não falarei mais nada sobre este assunto.

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Dele, guardarei comigo duas lembranças.  Essas posso contar, porque dizem respeito exclusivamente a mim e a ele.

A primeira foi uma bronca que ele me deu.  Por acidente, eu pressionara o botão que acionava o portão eletrônico exatamente na hora em que ele o estava transpondo a pé.  Ele se safou bem do movimento do portão, mas não perdeu a oportunidade de me repreender.  Falou baixo, em tom calmo.  Esclareceu-me dos riscos de acionar o portão sem ter total visibilidade da passagem, disse que valia mais a pena esperar um pouco, e terminou falando do risco do acidente que eu poderia ter causado com o acionamento inoportuno do portão.  Ouvi tudo calado.  Ainda que o ato tivesse derivado de um acidente, ele tinha plena razão.  E era o Sr. Valentim, a quem não cabia qualquer tipo de resposta que não fosse um “sim, senhor”.  Pedi desculpas, e zelo até hoje para que o tal acidente não volte a acontecer, lembrando vividamente da tal bronca.

A segunda é do Sr. Valentim saindo, algumas horas antes de cada jogo do Flamengo, para ir ao Maracanã.  Sempre trajado com calça social, camisa do Flamengo, casaquinho marrom, boina e o radinho de pilha em mãos.  Fazendo chuva ou sol, aos fins de semana ele pegava o ônibus e ia ao Maracanã viver a nossa paixão.  Quando nos encontrávamos, nesses momentos, ele sempre tinha uma palavra otimista, de incentivo.  Jamais duvidava da capacidade vencedora do Flamengo.  Era o que tínhamos em comum.

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Sr. Valentim falecera domingo, pela manhã.  Não viu o Fla-Flu, não viu o Flamengo campeão.  Ou melhor, viu, de camarote, rindo e vibrando com o nosso Flamengo e seu rádio de pilha.

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