Martim Moniz

Sempre que penso na Reconquista da Península Ibérica não a imagino como uma guerra nacional, como um projeto de independência e retomada de território perdido para o inimigo.  Sejamos sinceros, essa bravata nacionalista que Espanha e Portugal contam não era para convencer ninguém.  Tudo bem que em épocas anteriores, com os dois países mergulhados em ditaduras (Franco na Espanha e Salazar em Portugal), contar histórias de heroísmo repletas de sentimento nacional era algo conveniente, mas hoje em dia…  Há que se dar muito desconto ao que se ouve.

Primeiro porque a dominação moura durou muito tempo (quase 200 anos de estabilidade) para que alguém ali, durante a Reconquista, pudesse realmente se servir de um projeto social de vingança (Pelágio pode até ter tido algum sentimento nesse sentido, porque sua rebelião se deu muito próxima à concretização da Invasão Árabe, mas mesmo assim ela ainda era um episódio isolado).  Segundo porque o estabelecimento do domínio árabe na Península Ibérica foi bastante longo tolerante com a cultura local, de modo que se coadunaram povos, religiões e modos de vida, com intercâmbio social e cultural.  Estavam todos plenamente adaptados àquele cotidiano, até que nobres cristãos resolveram se rebelar.

E, convenhamos, naquela época, inexistindo os conceitos de país, nacionalidade, Estado, o que valia era a força (muitas vezes física) do governante.  Alguns deles quiseram conquistar mais domínios para si (aumentando a arrecadação de tributos e a quantidade de súditos, ao tempo em que demonstravam mais e mais força perante seus vizinhos), e partiram para a guerra contra os mouros.  Empunharam a bandeira religiosa em uma mão e armas na outra.  Longe de ter sido uma guerra religiosa, era uma guerra com inescrupulosas ambições econômicas; um investimento no aumento de seus poderes e de suas possessões pessoais.  Para tanto, alguns se valeram de alianças para unificar reinos vizinhos e se tornarem (e à sua descendência) ainda mais fortes.  Foi o caso de Isabel de Castela e Fernando de Aragão; outros, viram uma oportunidade de secessão, roubando para si próprios uma parcela do poder, como Afonso Henriques, primeiro monarca português.

Ao sabor da história, dos acontecimentos, das vitórias e derrotas militares, das grandes jogadas diplomáticas, assinando e rasgando acordos, comprando aliados, e usando sempre a bandeira religiosa como desculpa e arma de propaganda (coisa da qual, infelizmente, ainda estamos longe de nos livrar), a Península Ibérica forjou-se politicamente até se tornar o que é hoje: dois Estados, quatro países, cinco nações e seis línguas diferentes.  Dessas, Portugal é a que nos interessa neste momento.

A Reconquista Portuguesa não teve início com Afonso Henriques, mas ele foi o seu principal incentivador e elemento propulsor, conquistando para si (não para Portugal) quase metade do atual território português, ora guerreando com mouros, ora guerreando com os monarcas vizinhos de Leão.  Nessa sucessão de batalhas, uma de suas conquistas mais importantes foi a da cidade de Lisboa, em 1147, diante dos Mouros.

Cerco de Lisboa
Cerco de Lisboa

A figura central da história do Cerco de Lisboa é a própria cidade, envolvida por uma muralha que circundava toda a colina na qual ela se assentava.  No topo dessa colina, uma fortaleza exercia o papel da defesa militar e de sede administrativa local.  A ilustração acima, embora fantasiosa, ajuda a ilustrar a situação ora descrita.

Com apoio de cruzados enviados pelo Papa Eugênio III, Afonso Henriques e suas tropas fiéis se aproximaram de Lisboa para o assalto.  Como rezava a boa cartilha militar da época, fecharam cerco sobre a cidade, de modo a asfixiá-la e forçar a capitulação.  Segundo a mesma cartilha, o próximo passo era bombardear a muralha, lançando sobre ela projéteis, com o objetivo de fragilizá-la a ponto de, obtendo um colapso parcial, permitir a penetração das tropas invasoras.  Utilizando-se de uma iniciativa tecnológica nova à época, desenvolveram também o projeto de construção de uma torre que permitiria às tropas invasoras alcançar o adarve da muralha, viabilizando a invasão independentemente do colapso da muralha.

A vitória foi obtida pela capitulação da cidade pelos bombardeios constantes que se lhe impuseram ao longo de mais de três meses de cerco.  A torre sequer chegou a ser efetivamente utilizada, embora pareça ter sido um dos fatores que levaram à rendição dos sitiados.  Os cruzados tiveram, então, 24h para saquear a cidade antes da entrada de Afonso Henriques.  E aquela fortaleza situada no topo da colina foi rebatizada, com o nome de São Jorge – nome que o Castelo ostenta até os dias de hoje.

Sobre esse episódio, especificamente, reza a lenda que o fator definitivo da conquista cristã foi o sacrifício de um dos homens fiéis a Afonso Henriques, chamado Martim Moniz.  Em meio ao cerco, ele teria furtivamente se aproximado da muralha quando percebeu uma pequena abertura em um dos portões.  Vislumbrando naquilo uma oportunidade única, lançou-se na brecha.  Os defensores tentaram a todo custo fechar o portão, mas Martim Moniz teria colocado seu próprio corpo como forma de impedir o fechamento, ao tempo em que convocou seus companheiros a aproveitar a oportunidade.  Sua empreitada teria tido sucesso, com as tropas invasoras se aproveitando da brecha que ele segurou para invadir e conquistar a cidade, mas custou-lhe a vida, como nos mostra o vídeo de hoje.

 

As muralhas não mais existem (sobraram apenas alguns de seus portões, um deles o Arco das Portas do Mar, na Rua dos Bacalhoeiros – que pode ser visto na extremidade direita da imagem lá de cima), mas o Castelo ainda está lá.  É o principal cartão postal da cidade, possivelmente.  E tudo, em Lisboa, começa nele: sua história e sua visita.

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