Economia em frangalhos

Antes de ir a Buenos Aires eu já sabia que a economia argentina anda em frangalhos.  Chegando lá, muito do que eu sabia eu confirmei, mas vi outras coisas que me assustaram um pouco mais.  Acredito que falar da situação econômica da Argentina, comparando com o que vi por lá há nove anos, seja uma boa forma de começar a narrativa dessa experiência de viagem, pois serão muitas as referências a questões econômicas ao longo dos posts desta série.

Começando do início: há nove anos, o câmbio entre pesos e reais era muito parelho.  Um real me rendiam pouco menos de um peso e vinte centavos.  Só que, com um peso e vinte centavos, eu tinha, na Argentina, mais poder aquisitivo do que com um real no Brasil.  O cenário hoje não é mais esse.  Nas casas de câmbio brasileiras, um real equivale a aproximadamente 4 pesos; nas casas de câmbio portenhas, pode-se conseguir, em média, 4,5 pesos.  O melhor câmbio é o do Banco de la Nación do aeroporto de Ezeiza (comprei 4,66 pesos com um real lá), mas cheguei a ver casas de câmbio vendendo 4,1 pesos para cada real.  Frente à moeda americana, posso dizer que, no Free Shopping do aeroporto de Ezeiza, um dólar equivalia a 15,15 pesos.

Utilizando esses parâmetros, informo que, sempre que eu citar o valor de alguma coisa em pesos argentinos durante esta série, colocarei ao lado, como referência, o preço em dólar utilizando o câmbio de ARS15,15 e o preço em real utilizando o câmbio de ARS4,50 para conversão.  Também por esse motivo, é bom que o leitor esteja atento à data de publicação deste post para não se iludir com a defasagem das informações nele contidas: hoje elas estão razoavelmente precisas; amanhã, provavelmente não.

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Também me assustei ao ver os anúncios de imóveis no jornal – todos anunciados com preços em dólar norteamericano.  Não há indício maior de desvalorização contínua da moeda por causa de inflação do que isso.  Lembro de, ainda garoto, ouvir conversas de adultos fazendo referência a preços de imóveis em dólar aqui no Brasil.  Era uma lembrança muito remota, que foi reativada quando li aqueles classificados.  Ali tive certeza de que a coisa, na economia argentina, vai mesmo de mal a pior.

Outro indício da depreciação da moeda é que aquele velho golpe dos taxistas mal intencionados com notas de cem pesos praticamente não mais se aplica.  Qualquer corrida, por menor que seja, já alcança quase os cem pesos.  A nota de cem já não vale mais tanto assim, não justifica se desgastar por tão pouco – nem o taxista, nem o passageiro.  Já com a nota de 500…

Eu cheguei a recusar uma nota de 500 na minha casa de câmbio de confiança aqui no Rio de Janeiro achando que seria muito difícil trocá-la em Buenos Aires.  Minha referência era a dificuldade que eu tinha em trocar notas de 100 há nove anos.  Bobeira minha.  Notas de 500 são gastas com quase a mesma facilidade que nós temos aqui de gastar notas de 50 reais – embora o valor, tendo em vista a base de conversão explicada anteriormente, não seja o mesmo; o que varia, nesse caso, é o poder de compra.

Sim, porque não foi só a moeda argentina que se desvalorizou nesse período; o poder de compra do argentino também diminuiu, fazendo com que a coisa ficasse ainda pior do que antes.  Há nove anos, entrar em um magazine portenho qualquer, como a Falabella, e fazer compras de roupas era um grande negócio para um brasileiro; hoje não é mais – a não ser que você encontre algo único lá, mas aí já é outra história.

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Nem tudo segue essa lógica, porém.  Na média, sim; em alguns mercados específicos, não.  Vinhos, por exemplo: na Argentina são bem mais baratos do que aqui (falaremos sobre preços de vinhos em um post específico, futuramente).  Café expresso, por outro lado, é bem mais caro que aqui: um expresso no Starbucks (acredito ser essa uma boa commodity de referência), que aqui no Rio de Janeiro custa R$5,60, lá custa ARS45 (cerca de R$10) – e é uma bela porcaria, com gosto de café velho e passado.

Outra noção de preço desajustado à nossa realidade: a bandeirada do táxi custa ARS34 (aproximadamente R$7,50) – a diferença não é muita, mas já dá para perceber que o mito do “táxi barato”, em Buenos Aires, não existe mais.  O táxi lá não é barato; as corridas é que são curtas, porque a cidade, ao menos na parte turística, é pequena – bem menor que São Paulo ou o Rio de Janeiro.

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