Locomoção em Buenos Aires

O primeiro contato do turista com o transporte público se dá, normalmente, no aeroporto.  Em Buenos Aires e em qualquer lugar do mundo é assim.  Como sair do aeroporto?  Como chegar no hotel?  Local desconhecido, insegurança, com bagagens, crianças, dificuldades de comunicação por causa da barreira linguística…  É por isso que, nos principais destinos turísticos mundiais, as autoridades locais se esforçam muito para dar ao turista transparência em relação às opções de transporte – um meio de conferir segurança ao turista na sua escolha.

Em Buenos Aires não é assim.  Aliás, não só em Buenos Aires: na maioria dos destinos de terceiro mundo (incluindo todas as capitais brasileiras), o turista sofre para descobrir como ir do aeroporto à cidade, é refém de taxistas inescrupulosos, o transporte público é parco, ruim, demorado (isto é, ineficiente)…  E isso tudo dá margem à exploração predatória do turista, ao invés da exploração produtiva do turismo.

Estando com a Fiona e as crianças, eu não podia correr o risco de ver repetida a cena da minha recepção na capital portenha, nove anos antes.  Optei por apostar minhas fichas em uma opção cara, mas segura: utilizar o serviço especial de táxi (aqueles táxis que se contrata antes mesmo de sair do terminal de desembarque).  Ao preço de ARS740 (o equivalente a pouco menos de USD50), fui transportado por cerca de 33km até a porta do meu hotel – pedágios incluídos no preço.  Viagem tranquila, com motorista simpático e atencioso (voltaremos a falar dele em breve), chamado Ariel.  Mas ficou aquela sensação de que eu tivera sorte, não que aquilo era uma regra.  E minhas suspeitas se confirmariam.

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A rede pública de transporte em Buenos Aires não é tão terrível assim.  O metrô tem uma malha bastante interessante e abrangente, complementada por trens suburbanos que partem de três estações, espalhadas em forma de triângulo ao redor do centro, para os interiores da cidade.  De todas, a Linha A, com trens de madeira, é a mais interessante, do ponto de vista turístico.  Recentemente, a Linha H ganhou mais uma estação (Las Heras), interligando-se finalmente ao bairro chique da Recoleta.  Os bilhetes têm preço bastante modesto e tarifas decrescentes em função do uso mensal, que variam entre ARS7,50 e 4,50 (R$ 1,66 e 1, aproximadamente).

Os ônibus são um charme.  Têm um visual retrô hipercoloridos.  Nem parecem de verdade.  Chamam a atenção no meio daquela monotonia urbana.  Não sei quanto custam os bilhetes, nem quais são as linhas.  Mas eu adorava vê-los nas ruas, com seus parachoques cromados e aquele visual anos 80.

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Perambulando por Buenos Aires, uma das coisas que mais chamam a minha atenção é “como a cidade é plana”.  Talvez só Manhattan, dentre as cidades do mundo que eu conheço, seja tão plana quanto Buenos Aires.  Nem Berlim, nem Paris, nem Londres, nem Barcelona – que eu considero cidades bastante planas – são como a capital da Argentina.  Plana às pampas (os leitores de humor mais aguçado entenderão esta piada) – de fazer inveja a belorizontinos e paulistanos.  Para mim, carioca que sou, isso é excelente mas gera um certo problema: cariocas estão habituados a se guiar usando montanhas (principalmente o Corcovado) como pontos de referência.  Várias vezes me vi desorientado em Buenos Aires, por absoluta falta de pontos de referência.

Locais planos são um convite à locomoção em duas rodas.  Eu seria muito feliz em Buenos Aires em cima da minha magrela.  Primeiro porque a cidade é plana, não requer grandes esforços para se ir de um lugar a outro pedalando; segundo, porque a temperatura ajuda.

De fato, muita gente – mais do que no Rio de Janeiro ou em São Paulo – utiliza a bicicleta como meio de transporte em Buenos Aires.  A convivência com outros atores do trânsito me pareceu suficientemente cordial para viabilizar a prática das pedaladas (no sentido esportivo da expressão).  E a cidade ostenta um ar razoavelmente seguro para quem sai com a sua bicicleta – ao menos naquele trecho mais turístico da cidade, por onde perambulei, coisa que aqui no Rio nem isso tem rolado ultimamente.

Fiquei bastante tentado em, num eventual retorno, alugar uma bicicleta para locomoção.  É perfeitamente viável.

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Andar a pé é o que há de melhor em Buenos Aires.  As distâncias são curtas, as calçadas são de razoável qualidade, há respeito pelo pedestre, e a cidade, como dito, é plana.  Caminhar, passear, vagar, flanar…  Use a expressão que melhor lhe aprouver.  Todas são válidas.

Caminhando se pode descobrir aquelas lojinhas de doces (há muitas em Buenos Aires) ou de empanadas (também há muitas) que você não percebe quando passa de bicicleta ou nem sabe que existe, quando passa de carro, metrô ou ônibus pelo local.  Caminhando se pode percorrer ruas menores, mais residenciais, ver pessoas vivendo seus cotidianos, passeando com cachorros (pode até fazer uma pausa para brincar um pouco com os cachorros), levando os filhos para a escola…

As distâncias, na zona turística, em geral não são grandes.  Dificilmente superam os 5km, algo que uma caminhada sem pressa de 1h cobre com bastante facilidade.  Some-se a isso o fato de que nada funciona cedo e que não há muita coisa para fazer, fica perfeito.  Basta traçar um roteiro inteligente que permita percursos pequenos entre as atrações planejadas para o dia.  Nós caminhávamos em média 12km/dia – as crianças sentadas no carrinho.  E posso garantir: achei ótimo!

Até porque caminhar apresenta duas outras grandes vantagens: evita-se o inconveniente de se sujeitar a golpes de taxistas e faz-se um exercício – necessário para fazer frente à grande quantidade de comida que se acaba ingerindo em Buenos Aires.

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Além do táxi da chegada – relatado lá em cima do post – peguei táxi apenas em duas outras oportunidades.

Táxis em Buenos Aires, via de regra, são carros pequenos (Classic ou Prisma, da GM) e velhos.  Só com sorte você consegue um carro maior.  Para quem está carregando duas crianças e um carrinho duplo, isso é um problema.

Na primeira vez que eu fiz uso de um táxi, não houve grandes problemas – salvo para colocar o carrinho na mala, de volume reduzido pelo cilindro de gás.  Com jeitinho e paciência, consegui.  A corrida somou quase ARS85 (em torno de R$18), para uma distância de cerca de 4,5km – o que corrobora a minha tese de que os táxis em Buenos Aires não são baratos, as distâncias é que são curtas.

Na segunda vez, foi um tanto pior.  Deixei Fiona com as crianças e o carrinho na calçada e me projetei na rua para tentar pescar um táxi.  Três vezes fiz sinal, três vezes tive a corrida negada assim que o táxi percebeu que, além de mim, havia duas crianças para embarcar no táxi.  O quarto parou.  Carro velho, caindo aos pedaços, mas era o que eu tinha à disposição.  O motorista, apesar de se revelar totalmente avesso a qualquer tipo de conversa, obrou com tanta paciência diante das impertinências e bagunças do Fergus que eu lhe dei uma bela gorjeta.

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Também em duas oportunidades usei o Uber.  Funcionou bem, embora não fosse tão mais barato que o táxi.  Em ambas as oportunidades, o carro era bastante novo e estava limpíssimo.  Ambos os motoristas se comportaram de maneira simpática e paciente e dirigiram bem.

Aqui cabe uma nota particular: o Uber, em Buenos Aires, não usa o Waze como sistema de GPS, mas o Google Maps.  Só que o Google Maps de Buenos Aires não identifica o lado da rua do endereço solicitado.  Ele te leva até aquela altura e você tem 50% de chances de estar do lado certo, o que é um problema em ruas com duas mãos de direção.

Voltando ao assunto, em ambas as corridas os motoristas se revelaram profissionais part-time do volante.  Ambos trabalhavam em seus empregos durante o dia e, à noite, aproveitavam o tempo livre para aumentar a renda com o Uber.  Disseram que o Uber ainda é algo meio “clandestino” em Buenos Aires, enfrentando ostensiva resistência dos taxistas e até alguns atos de represália.  De um modo geral, porém, revelaram-se satisfeitos com o ofício exercido.

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O voucher do transfer do Aeroporto de Ezeiza até o hotel prometia um preço promocional para a viagem de retorno até o aeroporto, desde que solicitado com 24h de antecedência e pago em dinheiro.  Ao invés dos ARS740 pagos na ida, ARS550 para o retorno (aproximadamente USD36, um desconto de 25%).  Mas o Ariel, ao me desembarcar, fez um alerta: ao ligar para solicitar o táxi, eu deveria indicar que queria um carro grande, por causa das malas e do carrinho; se não fizesse esse alerta, era provável que recebesse um carro pequeno.

Não tive dúvidas.  Perguntei se poderia ligar diretamente para ele.  Ele titubeou um pouco, mas aceitou.  Na véspera da volta, liguei para o celular dele e combinamos a corrida.  Apesar de estar notoriamente gripado e de ser o dia do seu aniversário, ele chegou quinze minutos antes do horário combinado e, novamente, seu serviço foi extremamente satisfatório.  Disse que não trabalharia naquele dia em condições normais, mas abriu mão do descanso porque a corrida era particular – eu agendara diretamente com ele, e não com a empresa – e, por isso, o dinheiro iria todo para ele; se eu tivesse agendado com a empresa, ele receberia menos da metade do valor.

Recomendo os seus serviços.  E, quem ler este post e quiser agendar a corrida com ele, pode contactá-lo no telefone.

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