Sob a bênção e a proteção de Jorge

Uma vez tomado o Castelo – e, por consequência, a cidade de Lisboa – seguiu-se o ritual de extirpar dali os traços remanescentes da fé islâmica.  Mesquitas eram convertidas em igrejas.  Castelos eram rebatizados.  Como o cerco tivesse sido concluído em 21 de outubro (saques duraram até o dia 23; Afonso Henriques entrou triunfalmente na cidade no dia 24), celebrou-se a primeira missa em 25 de outubro, dia que, em Portugal, se celebra a memória de São Jorge – santo muito caro aos cruzados que apoiaram Afonso Henriques.  Assim, ele foi o escolhido para apadrinhar o Castelo de Lisboa.

Sob a bênção e a proteção de Jorge, a cidade se reergueu do saque, cresceu, prosperou, tornou-se a capital do reino, e assim permanece até hoje.  Sob a bênção e a proteção de Jorge, também o turista que chega a Lisboa não tem como evitar subir até o castelo para começar a conhecer, entender e passear pela cidade.

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Hoje o castelo não é mais do que um museu.  Não tem função militar.  Mas é preciso definir o que significa “castelo”, para fins do Castelo de São Jorge, antes de continuar a explicação.

O Castelo de São Jorge é um grande burgo.  Depois da queda da antiga muralha que cercava toda a colina que ele encima, dando origem aos bairros da Alfama e da Graça, restaram-lhe duas muralhas concêntricas. A mais externa também já foi parcialmente demolida, mas sua área ainda pode ser perfeitamente identificada em uma vista aérea. Testemunhas dessa situação outrora existente são os logradouros da parte mais alta da colina, cujos nomes encerrados com a expressão “do Castelo” ainda sobrevivem. Adjacente a elas fica o castelo propriamente dito, a fortaleza militar, por assim dizer.

Há muito a função militar foi extinta. Hoje é um grande museu. Há quinze anos, pagava-se para ingressar apenas no núcleo museológico; a área externa, envolta por muralhas das quais se tem ampla vista para a Baixa Lisboeta e a bacia do Tejo era de livre visitação – uma grande e formidável área de lazer. Tempos outros, que não voltam mais. Hoje é preciso adquirir bilhete para entrar na fortaleza.

Vista de Lisboa
Vista de Lisboa a partir do Castelo de São Jorge

O Castelo não é o monumento mais visitado de Lisboa, mas toda visita que se preze à cidade deve começar por ele. Por quatro motivos: ele é a atração turística que abre mais cedo na cidade, às 9h da manhã; ele é o principal cartão postal da cidade, a sua foto de identidade; e dele é possível entender geograficamente a cidade, vista do alto; a essa hora ainda é possível entrar no Eléctrico 28 para subir a colina.

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Chegar ao castelo é fácil.  Suba sempre, qualquer ladeira da Alfama.  Na dúvida, pegue a rua que sobe.  Assim se chega lá.  No entanto, há modos mais fáceis.

Eléctrico 28
O Eléctrico 28 na noite da Alfama

Os Eléctricos das linhas 28 e 12 são os meios clássicos de se subir a colina até próximo ao Castelo.  O ponto mais próximo se chama Largo das Portas do Sol.  Dali é possível ter acesso a um belo mirante que dá vista para montante do Tejo.  Placas indicam o caminho a ser seguido até a entrada do castelo (cerca de 300m).  O problema é conseguir entrar em um desses eléctricos, porque eles vivem lotados (exceto se você pegá-lo bem cedo).  A subida a pé vale a pena pela curiosidade de ver um urinol público, na esquina da Travessa do Funil com a Rua do Chão da Feira.

Outro meio é usar o autocarro (ônibus) da linha 737.  É um microônibus que circula da Praça da Figueira até a porta do castelo (menos de 50m), na Rua do Chão da Feira.  O problema desse ônibus é que ele é muito pequeno (são poucos lugares disponíveis) e a frequência é baixa (um a cada dez minutos em dias de semana e a cada quinze minutos nos fins de semana, em média).

Santa Cruz do Castelo
Ponto final do 737, com a entrada do Castelo ao fundo

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O bilhete deve ser adquirido na entrada, na bilheteria.  Custa 8,50€, com descontos para jovens estudantes, idosos, e outras categorias privilegiadas.  Não era o meu caso.  Acho, inclusive, que esse é um dos bilhetes mais caros de Lisboa, considerando as suas principais atrações turísticas.  Cedo não há filas; depois das 10h, prepare a paciência.  Desconheço método para aquisição antecipada do bilhete.  A propósito de escrever este post, o site do Castelo não funcionava muito bem.

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Afonso Henriques
A réplica da estátua de Afonso Henriques

Ao entrar no castelo, o visitante se depara com uma enorme esplanada, chamada Praça de Armas, na qual está a bela imagem de D. Afonso Henriques, primeiro monarca português, desembainhando sua espada.  Essa imagem é cópia da original, confeccionada por Soares dos Reis, que está localizada em Guimarães, entre o Castelo de Guimarães e o Paço Ducal.  Foi nessa esplanada que, há quize anos, realizava-se uma grande feira de produtos da terra e, na qual, meus pais compraram um pastel de bacalhau que foi dividido pela minha mãe e a minha irmã, resultando em quase quinze dias de indisposição intestinal e muitos quilos a menos.

Da amurada da esplanada é possível ter as vistas mais bonitas de Lisboa – especialmente pela manhã, com o sol a favor da visão.  No fim do dia, o ideal é estar na colina oposta, vendo a luz do pôr-do-sol refletir nas muralhas do castelo.

Mas se você imagina ver um palácio, com aposentos e interiores, esqueça!  O castelo, hoje, é nu.  São só muros e torres (originais e bem preservados), nada além disso.  Mesmo na fortaleza propriamente dita (um castelo dentro do castelo, apelidado de “castelejo”), apenas as muralhas e as torres são testemunho de suas funções militares, há muito abandonadas.

Castelo de São Jorge
Interior do Castelejo

Nas antigas prisões do castelo e nas poucas salas que restaram, hoje se encontram a administração do sítio histórico, lojas, um pequenino espaço para exposições temporárias, banheiros e uma cafeteria.  Em outro local, mais próximo à amurada que dá vista para a Baixa Lisboeta, há um restaurante.  Não é muito, nem é tão fascinante, mas é o que há de mais obrigatório para se fazer em Lisboa.

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Em sendo o ponto mais alto da colina, a continuação do passeio deve ser feita a pé, descendo e se perdendo pelas ruas estreitas e escadinhas do bairro da Alfama.  Para o lado da Baixa, visita-se o Teatro Romano, a Sé, a Igreja de Santo Antônio e a Casa dos Bicos (que abriga a Fundação José Saramago); para o lado da Graça, o Mosteiro de São Vicente de Fora, a igreja de Santa Engrácia (o Panteão dos Heróis Portugueses), o Museu do Azulejo e o Museu da Eletricidade.  Está tudo ali para a escolha do visitante.

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