Estilo Manuelino

Durante muitos anos predominou na Europa um clima de guerra constante, fruto do caos acéfalo político decretado pelo fim do Império Romano.  Aquela estabilidade política vinda de uma liderança forte e sempre presente que emanava de Roma não mais existia.  Em cada cantinho da Europa, os mais fortes sobrepujaram os mais fracos e se assenhoraram de pedaços de terras.  Justificaram essa tomada do poder à força pelo direito divino, envergaram títulos nobiliárquicos – para minimizar riscos de empobrecimento de sua descendência -, mas não conseguiram evitar as guerras entre si.  Foi um período marcado pela construção de castelos cercados por grossas muralhas encimadas por ameias e envolvidas por fossos, dentro dos quais viviam as populações subalternas ao nobre (os burgos).  Eram tempos sombrios na Europa, não é à toa que hoje lhe chamamos Idade das Trevas.

Capela Românica em Guimarães
Capela Românica em Guimarães

À medida que alguns nobres começaram a se sobrepor (pela força), reivindicando para si títulos que encimavam a hierarquia nobiliárquica (geralmente com o título de reis, mas também com títulos de duques, grão-duques, príncipes, etc.), obrigaram todos os demais a compromissos de fidelidade em armas – a vassalagem. Com o tempo, isso deu origem a um processo de equilíbrio de poder e consequente pacificação. Os velhos castelos já não eram mais tão necessários assim. Aquelas igrejas de paredes grossas e sem janelas também não. Os nobres deixaram de ser guerreiros viris para se tornarem apreciadores da boa vida e, com isso, os castelos se tornaram palácios. A arquitetura acompanhou essa transformação, para atender os novos gostos da época e aquele estilo duro e rude, chamado “Românico” cedeu a vez – paulatinamente – ao leve, confortável e iluminado “Gótico”.

Abadia de Saint-Dennis
Abadia de Saint-Dennis

Acredita-se que o Gótico tenha surgido na França, no século XI, tendo como primeiro representante a Abadia de Saint-Dennis, nos subúrbios de Paris. Foi a primeira vez, ao que consta, que uma construção grandiosa foi concebida sem ter a função defensiva como primeira necessidade. Ali, prevaleceram objetivos mais relacionados ao “estar” do que ao “defender”. Por isso, as laterais foram cobertas com vidro, o teto foi elevado e as paredes foram apoiadas em arcobotantes.

Quem olha para Saint-Dennis ainda percebe traços bastante grosseiros, rudes, paredes grossas e com poucos adereços, resquícios do Românico. Conforme o tempo foi passando e o Gótico foi evoluindo, os tetos ficaram ainda mais altos, janelas cresceram em quantidade, área e profusão de cores – os vitrais! – e elementos de adorno foram adicionados às paredes e torres, como gárgulas e pináculos.

A Europa inteira foi contaminada por essa onda artístico-arquitetônica; catedrais e palácios nesse estilo – as principais construções grandiosas dessa época – o adotaram. Em cada cantinho do mundo, o Gótico se amoldou a costumes, tradições e materiais disponíveis, dando origem a subestilos dele derivados.

Em Portugal, não foi diferente. D. Manuel, rei português que inaugurou a Dinastia de Avis, com o bolso cheio de dinheiro após o sucesso da expedição de Vasco da Gama, partiu para um ambicioso plano de imortalização da sua figura, financiando a construção de mosteiros, igrejas, castelos e outras peças arquitetônicas. Essa iniciativa recebeu adesão da nobreza portuguesa. Temperando o Gótico – que já então vivia seu momento de declínio – com as novidades que chegavam do Renascimento Italiano e os motivos náuticos tão caros aos portugueses, surgiu um subestilo gótico que levou o nome do rei mecenas português: o Manuelino.

O Manuelino nada mais é do que um gótico tardio (com fachadas triangulares de base menor que os lados, repletas e adornos, arcos ogivais) acrescido de elementos de influência mourisca (especialmente dos mosaicos mouriscos) e renascentista, além de elementos decorativos alusivos às navegações e ao mar, como cordas, redes, conchas e correntes, bem como a tradições locais.

Detalhe de um pórtico no Mosteiro de Batalha
Detalhe de um pórtico no Mosteiro de Batalha

A primeira grande construção em estilo manuelino foi o Mosteiro dos Jerónimos. Várias outras existiram e existem até hoje. Delas, no entanto, uma é especial, por ter sido ali que se aplicou com maior plenitude todos os seus elementos: a Torre de Belém. Sobre ela falaremos no próximo post.

Torre de Belém
Torre de Belém
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