A Coletiva de Barrabás*

Mas é costume entre vós que pela Páscoa vos solte um preso. Quereis, pois, que vos solte o rei dos judeus?

Então todos gritaram novamente e disseram: Não! A este não! Mas a Barrabás! (Barrabás era um salteador.)

Em um sábado qualquer da história do mundo, muita gente acorreu para uma casa abastada de uma cidade periférica situada no meio de um deserto que existia pouco além do fim do Mar Mediterrâneo.  Todos ali queriam ouvir a versão daquele homem para as acusações que o levaram à prisão e aos fatos ocorridos na manhã do dia anterior, quando um júri popular dera o que falar, resultando na sua absolvição.  Ele havia sido um dos envolvidos naquela decisão.  Perduravam rumores de que ele poderia voltar a ser preso pelas autoridades locais, insatisfeitas com a sua libertação.  Seus partidários tentavam atribuir ao episódio um caráter de perseguição política.  Para pôr fim a mal entendidos e limpar o seu bom nome junto à opinião pública, aquele homem convocara uma coletiva de imprensa.

Barrabás no dia do julgamento
Barrabás no dia do julgamento

[Entra Barrabás na sala por uma porta lateral, aberta por um serviçal, e se dirige a passos firmes até o centro da mesa, olhando para o chão, acompanhado de vários membros de sua família e amigos.  Senta-se ao centro da mesa, ornada com uvas e ramos de trigo, come um pedaço de pão, bebe um pouco do cálice de vinho.  Um pigarro faz todo alvoroço da sala silenciar.  Então Barrabás começa a falar.]

Se eu fosse o Sumo Sacerdote, eu faria uma Sessão do Sinédrio, porque temos quorum.  Eu gostaria de agradecer muitissimamente a presença de todos os colegas.  Foi um aviso de última hora, eu estou agradavelmente surpreso com este apoio totalmente espontâneo.  O meu objetivo aqui, e agora eu me dirijo a toda a imprensa de Israel, não sei se há imprensa internacional também, mas eu quero me dirigir à imprensa para salientar preambularmente, preliminarmente, que eu me sinto no dever de fazer esta declaração.  Não vou chamá-lo de pronunciamento, é um pouco pretensioso, mas é uma declaração de alguma maneira esclarecedora, tendo em vista as denúncias que foram apresentadas contra mim e o resultado do julgamento de ontem.

Vocês sabem da minha vida pregressa e da minha experiência em julgamentos.  Eu não me impressiono, muitas vezes, com os fundamentos, ou quem sabe até a falta de fundamentos jurídicos. Eu sei bem como são essas coisas. Eu sei quando a matéria é substanciosa, quando tem fundamentos jurídicos e quando não tem.  Então, sob o foco jurídico a minha preocupação é mínima. É claro que eu aguardarei com toda tranquilidade uma decisão Governador da Judeia.  Respeito absoluto meu pelas suas decisões judiciárias.  Mas, evidentemente, se fosse só o aspecto jurídico, eu não estaria fazendo esse esclarecimento à imprensa e ao povo de Israel.

Eu o faço em função da repercussão política e, particularmente, em função do ataque injurioso, indigno, infamante à minha dignidade pessoal. Convenhamos, de vez em quando eu brinco que eu já tenho mais de 30 anos, e eu tive ao longo da vida, uma vida, graças a Javé, muito produtiva e muito limpa. E exatamente neste momento, em que nós estamos colocando Israel nos trilhos, é que somos vítimas dessa infâmia de natureza política.

Os senhores sabem que eu fui denunciado por roubo. Notem, vou repetir a expressão, roubo, a essa altura da vida, sem jamais ter recebido valores, nunca vi o dinheiro e não participei de acertos para cometer ilícitos. Afinal, isto é que vale.

Onde estão as provas concretas de recebimento desses valores? Inexistem. Aliás, examinando a denúncia, eu percebo – e falo com conhecimento de causa – eu percebo que reinventaram os Dez Mandamentos de Javé e incluíram uma nova categoria, a denúncia por ilação. Se alguém cometeu um crime, e eu o conheço, ou quem sabe se fui visto ao lado de alguém, logo a relação é que eu sou também criminoso.

Abriu-se, portanto, meus amigos, minhas senhoras e meus senhores, um precedente perigosíssimo em nossa Lei. Esse tipo de trabalho trôpego permite as mais variadas conclusões sobre pessoas de bem e honestas. Até dou um exemplo, se me permitem: como nós estamos falando de ilações – a ilação inaugurada por essa denúncia, ela não existe na Torá -, permitiria construir-se a seguinte hipótese: o sogro do Sumo Sacerdote. E dou o nome por uma única razão, porque o meu nome foi usado deslavadamente inúmeras vezes na denúncia. Havia até, digamos assim, um desejo de ressaltar quase em letras garrafais o meu nome. Por isso eu dou o nome desse membro do Sinédrio de nome Anás. Homem da mais estrita confiança do senhor Sumo Sacerdote.

Pois bem, eu com a minha larga experiência em julgamentos, meus amigos, eu digo a vocês que o sonho de todo descendente de Abraão, de todo súdito de Davi era se tornar amigo do Sumo Sacerdote. Pois bem, este senhor, que eu acabei de mencionar, e lamento ter de fazê-lo, deixa um emprego, que como disse, é um sonho de milhares de israelenses, abandona o Sinédrio para trabalhar em empresa que faz delações ao Sumo Sacerdote.

E vocês sabem que quem deixa o Sinédrio tem uma quarentena, se não me engano, de dois ou três meses. Não houve quarentena nenhuma. O cidadão saiu e já foi trabalhar, depois de procurar a empresa para oferecer serviços, foi trabalhar para esta empresa e ganhou, na verdade, milhões em poucos meses. O que talvez levaria décadas para poupar. Garantiu ao seu novo patrão, o novo patrão não é mais o Sumo Sacerdote, é a empresa que o contratou, um acordo benevolente, uma delação que tira o seu patrão das garras da Justiça, que gera, meus senhores e minhas senhoras, uma impunidade nunca antes vista.

Basta verificar o que aconteceu ao longo desses dois, três últimos anos para saber que ninguém saiu com tanta impunidade. E tudo, meus amigos, ratificado. Tudo assegurado pelo Sumo Sacerdote.

Pela Torá, que eu estou dizendo da chamada ilação, ora criada nesta denúncia, que não existe nos Dez Mandamentos, poderíamos concluir nessa hipótese que estou mencionando, que talvez os milhões de honorários recebidos não fossem unicamente para o sogro de Caifás, que, na verdade, deixou o Sinédrio para trabalhar nessa matéria.

Mas eu tenho responsabilidade. Eu não farei ilações. Não farei ilações. Eu tenho a mais absoluta convicção de que não posso denunciar sem provas. Não posso fazer, portanto, ilações. Não posso ser irresponsável.  E no caso do senhor Judas Iscariotes, o desespero de se safar da cadeia moveu a ele e seus capangas, para, na sequência, haver homologação de uma delação, e distribuir o prêmio da impunidade. Criaram uma trama de novela.

Eu digo, meus amigos, minhas amigas, sem medo de errar, que a denúncia é uma ficção. Eu devo explicações, como disse, ao povo de Israel, especialmente à minha família e amigos. Porque, olhe, vou fazer um parênteses aqui: não há nada mais desagradável, os senhores têm familiares, do que a sua família estar a todo momento ligando a televisão, ou os jornais, e dizendo que o seu irmão, seu tio, seu pai é salteador. Não há nada mais desagradável que isso. Este é o ponto que mais me toca.

Então, talvez neste tópico da ilação, pelas novas leis da ilação, que disse ora criada pela denúncia, poderíamos, talvez, concluir que os valores subtraídos não fossem unicamente para o assessor de confiança que deixou o Sinédrio.  E eu volto a dizer que eu não quero fazer ilações, não denuncio sem provas.

O que eu tenho consciência é que não posso criar falsos fatos, para atingir objetivos subalternos. Por tradição e experiência, eu acredito na Justiça. Não serei irresponsável. O desespero de se safar da cadeia é que moveu o cidadão Judas e seus capangas a fazerem a delação.

Eu volto a dizer que a denúncia é uma ficção. Volto a sustentar que eu devo essas explicações, por isso estou insistindo nelas, talvez esteja sendo um pouco longo. E tentaram imputar a mim, como sabem, um ato criminoso, e não conseguirão, porque não existe jurídica e politicamente.

Mas exatamente quem deveria estar na cadeia está solto na Região dos Mortos, ainda voltar para cá e criar uma nova história. Já que a coluna inicial referente à gravação começou a ser questionada, então disseram: vamos trazê-lo de novo, por uma nova história que ele venha a contar. Ele foi trazido. Até de túnica, é interessante, ele veio de túnica para se disfarçar, nós não precisamos andar de túnica, não temos o que disfarçar.

E ainda vejam bem, vou dizer aos senhores, ainda se fatiam as denúncias para provocar fatos semanais contra mim. Querem parar Israel, num ato político com denúncias frágeis e precárias. Não é uma coisa qualquer. É preciso ter provas robustas, provas comprovadas. Aliás, a denúncia não pode vir por ilação, deverá vir porque o houve uma coleta de provas que não podem induzir a ideia de que possa ter um crime. Mas tem que ter prova concreta de que houve um crime.

Portanto, o que há é um atentado contra, na verdade, contra o nosso país. Eu, sabem os senhores, eu sou o responsável por todos os atos que pratico. Não foi sem razão, embora estando há um ano apenas, nós trabalhamos pela libertação do povo de Israel contra o jugo romano.

Falo hoje em defesa das leis de Israel e mais, talvez, na defesa à minha honra pessoal.

Eu tenho orgulho de estar solto, convenhamos, é uma coisa extraordinária. Para mim é algo tocante, é algo que… não sei como Javé me colocou aqui.  Dando-me uma tarefa difícil, mas certamente para que eu pudesse cumpri-la. Portanto, tenho a honra de estar livre, especialmente porque sou cidadão de Israel.

E não permitirei que me acusem de crimes que jamais cometi. A minha disposição é continuar a trabalhar por Israel.

Portanto, eu não fugirei das batalhas, nem a guerra que temos pela frente. A minha disposição não diminuirá com ataques irresponsáveis à minha pessoa, não quero ataques ao homem Barrabás.  Não me falta coragem para seguir na reconstrução do país e, convenhamos, na defesa da minha dignidade pessoal.

Muito obrigado a vocês.

* Apesar dos nomes trocados, de lugares, instituições e pessoas, o pronunciamento acima é praticamente cópia do discurso de ontem do Exmo. Sr. Presidente da República.

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