Carta à Paola Carosella

Rio de Janeiro, 03 de julho de 2017.

 

Cara Paola,

Retornei, no último sábado, ao seu restaurante, em São Paulo, a pedido da minha esposa.  Ela também esteve comigo na primeira visita, ocorrida em novembro do ano passado.  Em ambas as oportunidades, minha experiência não foi nada satisfatória.  Conversei sobre isso com uma amiga – que é sua fã incondicional – e, motivado por suas palavras, escrevo esta carta.

Cercado pela propaganda feita por essa sua fã incondicional, pelas belas palavras do seu livro de receitas autobiográfico e pelo estrondoso sucesso do programa MasterChef, aceitei a proposta da minha esposa e fui ao Arturito uma primeira vez.  O procedimento de reserva no site foi perfeito, assim como a recepção no local.  Havia uma mesa me esperando na hora marcada e não tivemos que esperar um segundo sequer para nos acomodarmos.  Até aí, nota 10.

E, para encurtar a conversa, digo logo que tudo (bebida, limpeza, velocidade do serviço, clima, enfim, tudo mesmo) naquela ocasião foi nota 10, exceto a comida.  E, convenhamos, é de comida que é feito um restaurante.  De nada adianta ter o melhor serviço do mundo se a comida deixa a desejar.  Eu, particularmente, se tiver que escolher entre um e outro, prefiro um serviço péssimo com uma comida deliciosa.  Porque o serviço termina quando você paga a conta; a comida perdura indefinidamente na barriga, na memória, na história.

Bem, naquela oportunidade a minha esposa chegou ao restaurante decidida em pedir o ojo de bife.  Eu não fazia a menor ideia do que pedir.  Percorri o cardápio inteiro e um prato chamou a minha curiosidade, mas havia um ingrediente que eu jamais havia ouvido falar.  Perguntei ao garçom que nos atendia e ele explicou que o prato era composto por um macarrão bem fininho embebido em um queijo muito-muito cremoso.  Imaginei algo extremamente consistente, e dado que eu sou fã de queijos, pedi o tal prato.

Bem, o macarrão era realmente bem fininho, mas o queijo cremoso passava longe.  Parecia mais uma sopa de macarrão do que macarrão com queijo.  Uma amiga, que nos acompanhava naquele dia e também pedira esse prato, traduziu em palavras o que a minha memória alimentar não conseguira: “isso aqui é um miojo!”.  Não era exatamente um miojo porque o macarrão era liso e porque havia o acréscimo de uma erva picada ligeiramente picante; excetuando isso, porém, o sabor e a textura eram de um macarrão instantâneo sim.

O prato terminou, porque sempre termina.  Para mim, se o prato é bom eu como com prazer; se é ruim, eu como com raiva.  Comer, eu sempre como.  A minha cara de decepção era tão grande que a minha esposa me ofereceu um pouco da sua comida.  A carne estava saborosíssima, em ponto perfeito.  Eu acrescentaria um pouco de sal, mas isso é gosto pessoal e, acredito, é melhor que venha daquele jeito e o cliente acrescente o sal a gosto.  O problema do prato dela é que era um simples bife com farofa de ovo, nada demais.  Aquilo, desacompanhado de arroz e feijão, não tem a menor graça.  Parece que falta alguma coisa.  E, convenhamos para comer carne com farofa, não vale a pena ir tão longe.  O miojo ficou na minha memória (negativamente); o ojo de bife, nem isso – e talvez essa seja o mais indesejado destino de um prato, o esquecimento.

No último sábado, como eu disse, voltei ao Arturito.  Éramos um grupo de cinco pessoas e ficamos um tanto desconfortáveis na mesa para quatro pessoas.  Faltou espaço para colocar garrafas, copos, pratos, talheres…  E não foi por impossibilidade de melhor acomodar, porque éramos o número 5 da lista de chegada para almoço.

Assim que cheguei, pedi água.  Logo depois, indagado pelo que iria beber, pedi a Martiataka Zummer – uma das melhores cervejas que já bebi, e que só encontro lá no Arturito.  O garçom serviu a cerveja no mesmo copo que ele mesmo havia servido a água um ou dois minutos antes – com um detalhe: o copo ainda estava com água.  Se eu não chamasse a atenção dele, haveria, literalmente, água no meu chope.  Ao menos, prontamente, ele trouxe outra garrafa e outro copo.

Notei também que o serviço não estava tão legal quanto na vez anterior.  Parecia haver pouca gente trabalhando.  O staff estava sempre correndo, esbaforido, transpirando pressa e transmitindo pressa aos clientes.  Havia uma certa impaciência na recepção dos pedidos, e tivemos dificuldades também, ao final, para solicitar a conta a alguém (tive que agarrar um garçom que passou para pedir, porque ninguém correspondera aos chamados que eu fizera com os olhos).

Não pude comer suas empanadas, porque nesta oportunidade elas estavam recheadas com azeitonas – alimento que meu paladar não tolera.  Mas isso é problema meu.  As minhas companhias elogiaram bastante.

Recomendado por aquela minha amiga – que é sua fã incondicional – e que acompanhava tudo remotamente pelo WhatsApp, pedi o gnocchi.  Minha esposa pediu, novamente, o ojo de bife.

A minha decepção começou quando o garçom tirou a cobertura metálica do prato e expôs a comida.  Era uma sopa de exatamente dez enormes bolas brancas com gosto de massinha de modelar infantil, entremeadas por pequenos pedaços de linguiça e entremeados com folhas verdes, algumas embebidas na sopa, outras colocadas sobre a comida.  As dimensões da borda do prato tornavam ainda mais diminuta a minha satisfação com o pedido – em outras palavras, havia mais prato que comida.  Foi tão chocante aquela desproporção que eu me senti inspirado a tirar uma foto para ilustrar a situação.

Sopa de massinha de modelar
Gnocchi, ou melhor, sopa de massinha de modelar

E estava frio. Acho que comida tem que ser servida ainda com fumacinha (principalmente sopas), para ser assoprada; isso ajuda a aumentar a experiência olfativa e preparar psicologicamente o comensal para a experiência gustativa que está prestes a realizar. O meu prato estava longe disso, parecia comida servida para bebê.

Não fosse pelas linguiças, a sopa não teria gosto de nada.

Novamente, minha esposa ofereceu-me o seu ojo de bife como prêmio de consolação.  Acho que ela também se sentia um pouco culpada por um novo convite frustrado.  Aceitei.

O ojo de bife dela composto por aproximadamente 1/3 de gordura, 2/3 de carne.  Havia uma enorme capa de gordura e o miolo do corte também era uma enorme bola de gordura, que fazia a carne parecer um ovo frito (imagine a gema como a bola de gordura e a clara como a carne comestível).

Paola, voltei da sua Argentina há um mês – Buenos Aires, apenas, para ser mais específico.  Comi em diversos restaurantes legais lá.  Pedi ojo de bife em todos.  E, em nenhum, vi uma “gema” de gordura no meio do ojo de bife – ainda mais daquele tamanho.  Ou todos me enganaram, ou o Arturito me enganou.  E ainda tinha um molho meio verde – picante demais para o meu gosto – sobre a carne que roubava o gosto da carne.  Uma pena!

E a sobremesa…  Bem, neste quesito eu tenho que admitir que as críticas a seguir são muito mais no aspecto do gosto pessoal do que de qualquer outra coisa.  Aliás, para entender o meu raciocínio, recomendo a leitura de outro texto, que poderá ambientá-la no meu jeito de pensar sobremesas (clique aqui, por gentileza).

As sobremesas pedidas (a Pannacotta e uma torta de chocolate amargo, com iogurte e abóbora) também não eram lá tudo isso: a Pannacota precisava de uma camada maior de doce de leite, pelo menos o dobro do que aquela camada fina, quase invisível, que veio no meu copo.  A falta de equilíbrio entre o doce e o salgado ficou muito evidente, em desfavor do doce.  Eu me senti numa daquelas gincanas infantis em que, quem acha o doce, ganha um vale-brinde.  A minha vontade sincera foi de colherar somente a parte de cima da Pannacotta e jogar o resto no fogo do inferno, digo, lixo.

A outra sobremesa…  Bem, juntar os três elementos numa única colher não era tarefa das mais fáceis.  Talvez se a abóbora fosse picotada e salpicada sobre o iogurte, a tarefa ficaria mais fácil – e em maior quantidade, porque ela é, disparado, o elemento mais saboroso dos três.  Só consegui colocar a abóbora na colher com o auxílio do dedo.  Outra coisa: o iogurte é amargo demais.  Tão amargo que eu suspeitei que estivesse estragado.  Não precisava tanto, até porque ele é o único elemento não sólido da sobremesa, se dissolve na boca e acaba se tornando muito mais presente no sabor do que a torta e a abóbora.  Sem contar que o chocolate não é tão doce assim, porque ele é 75%; não precisava de um elemento tão amargo para o contraponto.

Enfim, achei que foram duas experiências um tanto frustrantes.  Pedi à minha esposa para jamais me convidar ou propor fazermos uma refeição no Arturito novamente.  Ela me entendeu.  Espero que você me entenda também.  Sei que há muito de subjetivo nessas impressões.  Mas acredito que a arte da gastronomia envolve também a conquista do subjetivo.  E o meu, o seu restaurante não cativou – aliás, foi justamente o contrário.  Uma pena!

Na certeza de que eu, caso lido, poderei inspirar no mínimo uma discussão saudável sobre sabores, gostos e pontos de vista, despeço-me desejando sinceros votos de sucesso e contínua melhoria.

Atenciosamente,

Leandro.

 

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2 Comments

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  1. Até eu me frustrei só de ler….
    Já até desisti de ir…. rsrs. Se ainda fosse um pouquinho mais acessível ($$$) eu ate arriscaria para lhe dizer a minha opinião. Mas considerando a pequena fortuna que estarei pondo em risco. Melhor não.

    Do jeito que foi, não recomendo não.

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