A arte de fazer e desfazer acordos

Todos os dias eu levo alguma surpresa para os dois.  A hora da surpresa é a da saída da escola.

– Papai, o que você trouxe de surpresa hoje?, eles já saem perguntando, antes mesmo de dar um abraço, um beijo, dizerem que estavam com saudades ou contarem o que fizeram de legal na escola durante o dia.

A surpresa pode ser um pote repleto de uvas, uma barra de chocolate, um saco de pipoca ou até mesmo uma pessoa que, naquele dia, foi lá encontrá-los (a avó, a Dinda, ou qualquer outra pessoa que eles gostem).  Quando não tem surpresa, o tempo fecha.  E, naquele dia, eu não tinha nenhuma.  No caminho da escola até o trabalho da mamãe (onde ela nos esperava para uma carona), começaram as negociações por uma compensação à falta da surpresa.

Propus, inicialmente irmos à sorveteria.  Proposta aceita por ambos.  Um queria picolé, outro sorvete.  Negociamos um picolé para cada um.  Qual sabor?  Eu pediria o de limão, Fergus o de uva e Felícia quis o de brigadeiro.

– Brigadeiro é muito caro.  Eu não tenho dinheiro.  Pode ser de chocolate?

Não era pelo dinheiro, era pelo debate.  Eu queria testar e treinar a flexibilidade dela – e enrolar a viagem, no meio daquele trânsito caótico.  Seguiu-se, então, uma negociação enorme que começou a envolver vários aspectos, que iam desde colocar o cinto de segurança sozinha ao entrar no carro até não invadir a minha cama durante a noite, passando por eu aquecer o leite por 16 segundos todos os dias de manhã antes de servi-lo, a liberação do aumento do volume da televisão para assistir desenho e um cem número de outras coisas.  Era um compromisso de vida conjunta, tudo em nome de um picolé de chocolate ao invés de um picolé de brigadeiro.

O acordo final foi selado – e recapitulado – a metros da chegada ao trabalho da Fiona.

Fiona, então, entrou no carro e, antes que eu pudesse anunciar a ida à sorveteria e o acordo selado, Felícia se apressou em perguntar:

– Mamãe, você tem dinheiro para comprar um picolé de brigadeiro?

E, antes que eu pudesse brifá-la do ocorrido, Fiona respondeu, inocentemente:

– Para um picolé de brigadeiro, acho que tenho sim…

– Então, papai, esquece o nosso combinado.  Eu vou comer picolé de brigadeiro com a mamãe.

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One Comment

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  1. Esperta essa menina!
    Tão rápida quanto a dinda, em termos de negociação.

    Verdade…

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