Na prática, a teoria é diferente

Quem lê esse bilhete até acredita que o serviço da linha 422 é só doçura.  Pois então eu vou contar como foi a minha viagem – uma viagem qualquer – na última terça-feira, exatamente há uma semana, quando eu tive a honra de ser conduzido por um desses motoristas cuti-cuti até o meu destino.

*****

O ônibus estava vazio e o motorista parou próximo à calçada para o embarque.  Surpreso com ambos os fatos, tão incomuns que são, sentei-me na minha posição favorita.  A viagem realmente transcorria com absoluta normalidade, calma e tranquilidade até outro ônibus da mesma linha se aproximar e parar no sinal vermelho ao lado do ônibus no qual eu estava.  Um motorista abriu a porta, o outro abriu a janela.  Conversaram alguma coisa que eu não consegui entender (muitas vezes tenho a impressão de que eles falam outra língua).  Dali para frente…

Nada pode ser mais nefasto para um passageiro (dentro ou fora do ônibus) do que dois ônibus da mesma linha juntos.  Quem tá fora não consegue embarcar, porque eles não param; quem tá dentro não consegue desembarcar, porque eles não param.  Tudo porque ambos querem chegar primeiro no ponto final.  É uma competição, é um rito, uma das características mais peculiares do sistema de transporte público rodoviário do Rio de Janeiro.  Acontece assim em todas as linhas, em todos os horários, em todos os lugares.  Há quem incentive (fiscais, passageiros, trocadores); há quem atrapalhe (fiscais, carros, sinais de trânsito, pedestres, guardas de trânsito).  Não importam os obstáculos (calçadas, sinais vermelhos, passageiros), não importam as regras: só vencer importa.

Foi exatamente isso que aconteceu naquele momento.  Um desafio interno – do qual nós, passageiros, éramos reféns.

*****

Quando o sinal abriu, foi dada a largada.  Ambos aceleraram o máximo, esgoelando seus motores, numa arrancada de 100m até o ponto seguinte.  O meu ônibus parou a três metros da calçada, em frente ao ponto.  O outro parou atravessado na pista, ocupando três faixas de rolamento, na frente do meu ônibus, assegurando que não seria possível qualquer manobra para ultrapassá-lo enquanto ele estivesse parado ali.  Na verdade, nem o meu ônibus nem ninguém o passariam.

Mesmo assim, o meu ônibus arrancou antes que todos os passageiros embarcassem.  Fechou as portas e arrancou, deixando alguns passageiros na calçada, porque o outro ônibus, que parara à sua frente, só desembarcou passageiros (não abriu a porta de embarque) e por isso fora mais eficiente.

Eles partiram em disparada rumo à esquina; dobraram à direita e, à vista do sinal vermelho, frearam com vontade.  O negócio foi violento mesmo para mim, que estava sentado e prestando atenção na corrida.  Uma sacola de mercado contendo uma caixa de ovos, da senhora que sentara no último banco, foi ao chão e se espatifou.  Não preciso dizer como ela ficou feliz com o ocorrido.

O sinal abriu, nova arrancada.  Curva à esquerda, curva à direita, sinais da cigarra ignorados, carros atrapalhando, zigue-zague entre carros, motos e tudo o mais que havia no caminho.  A perseguição era implacável.  O trânsito parou, os reféns que já haviam perdido seus pontos foram liberados (na pista da esquerda mesmo – era melhor descer no meio do trânsito do que desembarcar sabe-se lá quando e onde, vivo ou não).  Sinal verde, nova arrancada.  No fim da rua, o sinal ficou vermelho.  O ônibus da frente ignorou a ordem luminosa de parar, avançou e dobrou à esquerda; os carros da outra rua, autorizados a seguir pelo sinal verde, começaram a andar, buzinaram, reclamaram, mas seguiram.  Foi o suficiente para impedir que o meu ônibus avançasse o sinal tal como o seu antecessor.  Tal como o seu antecessor…

Porque ele avançou o sinal

– Vai aonde, piloto?  Não tá vendo que o sinal está vermelho?  Sossega o facho aê!, gritei lá do fundo.  Ele se conteve e esperou uma brecha para sair de cima da faixa de segurança e concluir o avanço do sinal vermelho com cautela, seguindo nova arrancada.  Ignorou mais duas chamadas para embarque e desembarque de passageiros, mantendo o seu algoz na alça de mira, à frente.

No ponto seguinte, ambos pararam.  Ali muita gente embarca e desembarca, porque há um supermercado em frente.  Mas, quando o ônibus da frente arrancou (porque já estava há mais tempo no ponto), ele foi atrás – ignorando que uma pessoa ainda estava desembarcando pela porta de trás aberta.  Só uma intervenção místico-divina explica aquela pessoa não ter caído fora do ônibus e se machucado seriamente.  Diante da gritaria que rolou dentro do ônibus, ele parou e a pessoa desembarcou.

Isso fez com que ele ficasse para trás na corrida.  Havia tempo a ser recuperado.  Uma menina bonita se levantou e puxou a cigarra.  Ele ignorou.  Ela gritou e reclamou.

– Ô motorista!  Olha o ponto aí!  Eu puxei a cordinha!

Um gaiato emendou:

– Se ele faz isso com ela, que é bonita, imagina o que vai fazer quando eu puxar a cordinha…

Nada mais sensato.  Óbvio que ele só parou no ponto seguinte.  A contragosto.  E fez questão de registrar sua indignação com aquele acinte da moça (o acinte consistiu em pedir para desembarcar no meio da corrida, não em reclamar em voz alta) ao soltar o pé da embreagem a cada troca de marcha subsequente.

Foi então que, numa manobra espetacular, ele passou o outro ônibus.  Do lado de fora, três motoristas buzinaram, uma moto quase foi ao chão e duas pessoas se apressaram em pular na calçada para fugir de um acidente iminente.  Foi, realmente, uma manobra genial, arrojada, formidável, memorável, magistral, que poucos conseguiriam repetir.

Entraram, então, em um trecho do itinerário composto por ruas apertadas, onde é impossível a ultrapassagem – uma espécie de Mônaco.  Meu ônibus na frente, o outro atrás, na cola.  A senhora que teve os ovos quebrados fez sinal para desembarcar e já foi logo avisando.

– Ô motorista, tá escutando?  Eu vou descer no próximo.  Não vai fazer igual você fez com a outra senhora de arrancar com o ônibus enquanto eu desço.  Você espera eu descer, hein?  Eu já tenho idade e tô com compras.  Espera!

Ele esperou.  Mais porque não dava para o outro ultrapassá-lo ali, menos por causa da bronca preventiva.  Arrancou.  Outra senhora, também com sacolas de compras do supermercado, fez sinal e repetiu a tática, dessa vez com mais suavidade:

– Motorista, eu vou saltar no próximo ponto, ali na esquina.  O senhor se incomoda de parar para eu descer?

Dois pontos depois, eu desci.  Zonzo.  E ele sequer parou completamente o ônibus para eu descer, só diminuiu a velocidade e abriu a porta traseira.  Pulei na calçada.  Era melhor do que esperar ele reacelerar e me manter refém.  Ele já havia dado mostras suficientes de que era capaz disso e de muito mais.

*****

E aí você vê um tuíte desse da Rio Ônibus e até acredita na doçura dos motoristas dessa linha…

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One Comment

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  1. Azar o seu, que não pega o 635 com Ditinho…. com direito a lugar marcado, grupo de zap e festa de aniversário!

    Realmente eu já fui mais fiel a linhas e motoristas do que hoje. Sinto falta desse tempo.

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