Escola em casa

Eu sinceramente não tenho o que reclamar da escola.  Foram só duas semanas de paralisação das aulas.  Na terceira, já havia um esquema excelente montado e funcionando para dar continuidade às atividades letivas, usando a plataforma do Google Classrom.

Felícia tem aula mesmo, com aprendizado e evolução nos livros didáticos.  Fergus um pouco menos.  A diferença de idade e de segmentação escolar não permite mais do que está oferecido.  A escola tem medido bem a dose, eu acho.  Mesmo assim, a maioria dos pais reclama.  Uns reclamam que tem pouca aula, outros reclamam que tem muita.  No fundo, eles reclamam é de ter que fazer o papel de assistentes de ensino e não ter a parte de hotelaria funcionando.

De fato, é uma equação muito difícil.  Muitos pais perderam renda, estão em casa convivendo com os filhos, sem apoio de avós tampouco as facilidades de uma vida cotidiana, com empregada doméstica e saídas para desanuviar (ou fugir da realidade).  Protestos em grupos de WhatsApp são uma realidade constante e acho que variam em função de uma série de fatores, desde a chegada de novas contas para pagar até a incapacidade de se ir ao banheiro em paz, passando pelo volume de álcool consumido.

Da minha parte, apesar de ter ainda inúmeras dúvidas sobre se o isolamento social era a decisão mais acertada (hoje não as tenho mais), entendi rapidamente que a medida iria durar muito mais do que o inicialmente anunciado.  Preparei-me psicologicamente para o pior – tanto que a primeira bad que bateu (usando o jargão hodierno) foi neste fim de semana.  E ele se deu muito mais pela bagunça da casa do que pelo desespero do confinamento.  Adoro a minha casa, sei onde passa cada cano e cada eletroduto, a bitola de cada cabo elétrico, todas as tomadas foram planejadas.  Ficar em casa é contemplar a perfeição do planejamento, do sacrifício e da obra que fizemos há quase seis anos.  É só alegria.

Felícia tem algumas aulas gravadas, muitos recursos audiovisuais, e também tem aulas que a professora transmite ao vivo, com hora marcada, desde a sua residência, para todos os alunos simultaneamente.  Fergus, porém, só tem aulas gravadas.  As professoras gravam três ou quatro vídeos (com tempo de duração total de menos de meia hora), no qual abordam um tema único: português ou matemática.  Português está ligado à alfabetização e matemática ao conhecimento dos números e questões de lógica.  Tudo perfeitamente adequado à sua faixa etária.  Nessa idade, não adianta forçar mais tempo nem fazer aulas ao vivo, eu acho: a atenção dispersa, a pegada não é a mesma de aula presencial, as possibilidades de experimentação não são as mesmas…  É o que dá para ter nesse momento, e é bom.  Muito bom.

Desde o início, tomei por mim que deveria interferir o mínimo possível nesse processo.  Joguei a responsabilidade para eles.  Ensinei o básico de operação do computador e do navegador, e não me meti mais.  Ambos têm se virado sozinhos muito bem.  Cada um faz a sua aula, Felícia lá no quarto dela, Fergus aqui do meu lado na sala de casa, afinal de contas, ele precisa mais de ajuda e, dessa forma, o quarto dele ficou um recinto de brincar, enquanto a sala ficou um recinto de estudar.  Ah, e os dois passam o dia de uniforme, para emprestar seriedade e solenidade ao estudo (e me poupar na hora de lavar a roupa).

Dia desses, em mais uma discussão pelo grupo dos pais da turma do Fergus no WhatsApp, essa sobre a validação das aulas online pelo Conselho Nacional de Educação, discordando da maioria, eu me manifestei achando que a decisão havia sido sensata.  E aí emendei:

Falando sério: eu estou adorando esse período em casa com eles.  Adoro a minha casa, participo das atividades, mato a curiosidade de como eles se comportam e o que eles aprendem.  É chato lavar um mundo de louça, roupa, cozinhar, se desdobrar entre reunião de trabalho e a fome da tarde, mas estou curtindo de verdade esse período com eles.  Estou de novo na escola.  Consigo entender muito melhor os desafios dos professores, as dificuldades, o quão inteligentes as crianças são, as curiosidades, sagacidades…  Estou positivamente surpreso com a adaptação deles a esse meio novo de transmissão de conhecimento (eles se adaptaram muito mais rápido que os professores).  É difícil?  É.  É chato? É. Tem restrições severas?  Tem.  Eu quero a velha normalidade de volta?  Quero.  Mas não tenho o que reclamar.  A escola está mandando muito bem e as crianças também.

Isso resume esse negócio de escola em casa (ou HomeSchooling, no jargão hodierno), ao menos para mim.  Fergus, esta semana, leu seu primeiro livro sozinho.  Cheio de dificuldade, verdade, mas decifrou todos os fonemas, todas as palavras, sem ajuda.  E fez isso sem escola, comigo.  Essa vitória é minha.  E isso ninguém me tira.

E também tem o lado oposto do negócio.  Na aula de hoje, a professora quis mostrar que trocando apenas uma letra, as palavras ganhavam um sentido completamente diferente.  Trocando “R” por “G”, o rato vira gato – e a história mudava completamente de sentido, porque o rato foge do gato e o gato persegue o rato.  Trocando o “G” por “B”, a gola da camisa se transforma em bola de brincar, e tudo fica mais divertido.  E trocando o “V” por “C” – e isso era animado por letras coladas a um quadro branco e o desenho de um cavalo – a vela se transformava em cela, aquele lugar onde o o cavaleiro senta quando monta a cavalo…

– Felícia, minha filha, traz o dicionário aqui, por favor!

Vai que o maluco sou eu?  Melhor certificar junto ao pai dos burros.  E, não, eu não enlouqueci ainda nessa quarentena.  A professora escorregou mesmo.  Colei um recado no mural da turma, para todos os pais lerem:

Professora, observação sobre a Videoaula 3: o assento sobre o qual o cavaleiro se senta é “sela”, não “cela”.  “Cela” é um aposento de prisão ou de monastério.

A escola em casa é uma via de mão dupla.  Dá trabalho para mim, mas também dá trabalho para o professor.

1 Comment

  1. Muito bom!!! muito bom!!! Tenho ouvido muitas reclamações das amigas/os. Gabriel tá muito pequeno, não tenho esses dilemas ainda, mas penso que…em isolamento, todos reclamam da rotina com filhos; sem isolamento, idem. Eu prefiro ver o lado do copo cheio. Custei muito a ter filho e estou amando cada minuto que tenho que acordar de noite, cada minuto cansada, cada minuto de amor incondicional. Sempre sonhei com isso. Só agradeço.

    É bom poder escolher seu próprio destino, nem sempre é bom quando o destino te escolhe.

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